No passado dia 3 de Março de 2004 voltou à discussão no Plenário da Assembleia da República, órgão de soberania, a questão da Interrupção Voluntária da Gravidez. Uma vez mais, os apoiantes do “sim” e do “não” mobilizaram-se na luta pelas respectivas causas, expondo na ocasião, e uma vez mais, os motivos e as razões que os movem na luta em torno da questão.
Um regime de democracia pluralista, como o que temos, não se esgota com a colocação de um voto na urna de quatro em quatro anos, um regime democrático constroí-se todos os dias, com a participação cívica activa de todos os cidadãos, em torno das questões de interesse público.
Também é de referir que, num regime democrático, todas as opiniões, desde que fundamentadas, são legítimas, concorde-se ou não com as mesmas e que todos os cidadãos, sem exepção, têm o direito e até o dever de exprimir o que pensam, participando activamente naquilo que os antigos chamavam de “vida pública”, a título individual ou inseridos num qualquer grupo, seja um partido político, um movimento ou associação cívica ou uma organização não-governamental.
Assim sendo, não deixou de ser salutar podermos assistir à participação e à mobilização dos cidadãos em torno da questão da Interrupção Voluntária da Gravidez, que é, por excelência, um assunto que mobiliza a chamada sociedade civil.
Foi sem espanto que verifiquei que no café, em casa, na escola, na Universidade, no emprego, na rua e em tantos outros locais se tivesse repetido o debate efectuado pelos deputados, na Assembleia da República, isto é, quem defende a despenalização esgrimia argumentos com quem não a defende e vice-versa.
Também verifiquei que os diversos movimentos cívicos pró e contra o aborto se mobilizaram, tentando convencer o cidadão comum da nobreza da sua causa. Desde que o façam com a intenção de informar e de esclarecer os cidadãos, tendo em conta valores como os da responsabilidade e do bom–senso, são intervenções sempre bem vindas, caso contrário, podem ter o efeito de prejudicar a causa que defendem.
Foi o que se passou com quem distribuiu folhetos contra a Interrupção Voluntária da Gravidez, à porta das escolas.
Pessoalmente, creio que o conteúdo do dito folheto é inoportuno e infeliz, principalmente quando se tratava de algo para se distribuir a crianças, algumas delas com seis anos de idade!
É como cidadão que me sinto com o dever de denunciar publicamente o chocante conteúdo do dito folheto.
Diz o folheto que "em caso de violação ou perigo de saúde para a mãe, não se pode tentar resolver uma violência com outra não menos terrível", se assim é, porque é que o mesmo não assume claramente que é contra todo e qualquer tipo de Interrupção Voluntária da Gravidez, defendendo a revogação da lei de 1984? Creio que os autores do texto são incapazes de assumir que desejam que as sociedades e a legislação que as suporta possam retroceder no tempo. Mas deviam-no fazer, em nome da sinceridade e da transparência.
No folheto, um testemunho afirma que “tinha as ideias e a vida bastante certas”, mas que as “a televisão, os filmes, as companhias” lhe meteram na cabeça “que a virgindade era coisa antiquada”. Posto isto, gostaria de saber o motivo pelo qual os autores do texto não assumem claramente que defendem que a única forma de evitar uma gravidez indesejada é a abstinência sexual? Só posso concluir que ainda há quem defenda que o sexo só deve ser praticado depois do casamento e somente para fins reprodutivos, devia assumi-lo! Dá uma sensação de hipocrisia...
Já agora, qual é a posição destas pessoas em relação à Educação Sexual?
Pouco ou nada se faz para informar os jovens acerca da sexualidade, nomeadamente no que diz respeito à introdução da disciplina da Educação Sexual nas escolas. Pessoalmente, julgo que é urgente que se tomem medidas concretas acerca de se informar os jovens acerca da sua sexualidade, nomeadamente nos capítulos das doenças sexualmente transmissíveis e dos métodos contraceptivos que podem utilizar.
Voltando ao nosso folheto, afirma que no hospital de Taiwan até se compram bebés para serem comidos. Inclusivamente, aparece uma foto de um homem comendo um bebé, fazendo-me lembrar os boatos totalmente falsos que, após o 25 de Abril, alguém espalhou, de que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço...
E andam a distribuir isto à porta das escolas? Numa altura em que tanto se fala das consequências negativas advindas da passagem de imagens chocantes e violentas na televisão, vai-se para a porta de uma escola distribuir isto a crianças que podem ter seis anos de idade?
Infelizmente, ainda não ficamos por aqui, pois no dito panfleto, na sua última página, aparece uma pequena banda-desenhada, cujos intervenientes são um cão, um gato e um bebé, em que o cão diz para o bebé: “Não tens uma sociedade protectora? Estás pior do que nós!”. Sem comentários.
Algo que não li no folheto foi acerca do trauma provocado a uma mulher que aborta através da humilhação de ser julgada e condenada judicialmente. Gostaria de saber se quem escreveu aquelas linhas pensa que esta mulher é uma criminosa... Eu não creio que o seja. Se me for permitida uma humilde opinião sobre a matéria, creio que a actual legislação impõe a uns a opinião de outros, com consequências nefastas para a saúde pública, nomeadamente para a saúde das mulheres. Sou favorável à despenalização para que, quem o fizer, o possa fazer com as mínimas condições de higiene e segurança e não seja punido judicialmente por isso. Quem não o quiser fazer, por motivos morais ou religiosos, continua a não o fazer, mas não tem nenhum direito de impor a toda a sociedade as suas convicções, como acontece na actual legislação.
Para terminar, penso que cumpri o meu dever de cidadão, ao denunciar uma situação que penso ser digna de denúncia, por se tratar de uma demonstração de sectarismo e, atrever-me-ia a dizê-lo, de fanatismo, em pleno século XXI.
Um regime de democracia pluralista, como o que temos, não se esgota com a colocação de um voto na urna de quatro em quatro anos, um regime democrático constroí-se todos os dias, com a participação cívica activa de todos os cidadãos, em torno das questões de interesse público.
Também é de referir que, num regime democrático, todas as opiniões, desde que fundamentadas, são legítimas, concorde-se ou não com as mesmas e que todos os cidadãos, sem exepção, têm o direito e até o dever de exprimir o que pensam, participando activamente naquilo que os antigos chamavam de “vida pública”, a título individual ou inseridos num qualquer grupo, seja um partido político, um movimento ou associação cívica ou uma organização não-governamental.
Assim sendo, não deixou de ser salutar podermos assistir à participação e à mobilização dos cidadãos em torno da questão da Interrupção Voluntária da Gravidez, que é, por excelência, um assunto que mobiliza a chamada sociedade civil.
Foi sem espanto que verifiquei que no café, em casa, na escola, na Universidade, no emprego, na rua e em tantos outros locais se tivesse repetido o debate efectuado pelos deputados, na Assembleia da República, isto é, quem defende a despenalização esgrimia argumentos com quem não a defende e vice-versa.
Também verifiquei que os diversos movimentos cívicos pró e contra o aborto se mobilizaram, tentando convencer o cidadão comum da nobreza da sua causa. Desde que o façam com a intenção de informar e de esclarecer os cidadãos, tendo em conta valores como os da responsabilidade e do bom–senso, são intervenções sempre bem vindas, caso contrário, podem ter o efeito de prejudicar a causa que defendem.
Foi o que se passou com quem distribuiu folhetos contra a Interrupção Voluntária da Gravidez, à porta das escolas.
Pessoalmente, creio que o conteúdo do dito folheto é inoportuno e infeliz, principalmente quando se tratava de algo para se distribuir a crianças, algumas delas com seis anos de idade!
É como cidadão que me sinto com o dever de denunciar publicamente o chocante conteúdo do dito folheto.
Diz o folheto que "em caso de violação ou perigo de saúde para a mãe, não se pode tentar resolver uma violência com outra não menos terrível", se assim é, porque é que o mesmo não assume claramente que é contra todo e qualquer tipo de Interrupção Voluntária da Gravidez, defendendo a revogação da lei de 1984? Creio que os autores do texto são incapazes de assumir que desejam que as sociedades e a legislação que as suporta possam retroceder no tempo. Mas deviam-no fazer, em nome da sinceridade e da transparência.
No folheto, um testemunho afirma que “tinha as ideias e a vida bastante certas”, mas que as “a televisão, os filmes, as companhias” lhe meteram na cabeça “que a virgindade era coisa antiquada”. Posto isto, gostaria de saber o motivo pelo qual os autores do texto não assumem claramente que defendem que a única forma de evitar uma gravidez indesejada é a abstinência sexual? Só posso concluir que ainda há quem defenda que o sexo só deve ser praticado depois do casamento e somente para fins reprodutivos, devia assumi-lo! Dá uma sensação de hipocrisia...
Já agora, qual é a posição destas pessoas em relação à Educação Sexual?
Pouco ou nada se faz para informar os jovens acerca da sexualidade, nomeadamente no que diz respeito à introdução da disciplina da Educação Sexual nas escolas. Pessoalmente, julgo que é urgente que se tomem medidas concretas acerca de se informar os jovens acerca da sua sexualidade, nomeadamente nos capítulos das doenças sexualmente transmissíveis e dos métodos contraceptivos que podem utilizar.
Voltando ao nosso folheto, afirma que no hospital de Taiwan até se compram bebés para serem comidos. Inclusivamente, aparece uma foto de um homem comendo um bebé, fazendo-me lembrar os boatos totalmente falsos que, após o 25 de Abril, alguém espalhou, de que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço...
E andam a distribuir isto à porta das escolas? Numa altura em que tanto se fala das consequências negativas advindas da passagem de imagens chocantes e violentas na televisão, vai-se para a porta de uma escola distribuir isto a crianças que podem ter seis anos de idade?
Infelizmente, ainda não ficamos por aqui, pois no dito panfleto, na sua última página, aparece uma pequena banda-desenhada, cujos intervenientes são um cão, um gato e um bebé, em que o cão diz para o bebé: “Não tens uma sociedade protectora? Estás pior do que nós!”. Sem comentários.
Algo que não li no folheto foi acerca do trauma provocado a uma mulher que aborta através da humilhação de ser julgada e condenada judicialmente. Gostaria de saber se quem escreveu aquelas linhas pensa que esta mulher é uma criminosa... Eu não creio que o seja. Se me for permitida uma humilde opinião sobre a matéria, creio que a actual legislação impõe a uns a opinião de outros, com consequências nefastas para a saúde pública, nomeadamente para a saúde das mulheres. Sou favorável à despenalização para que, quem o fizer, o possa fazer com as mínimas condições de higiene e segurança e não seja punido judicialmente por isso. Quem não o quiser fazer, por motivos morais ou religiosos, continua a não o fazer, mas não tem nenhum direito de impor a toda a sociedade as suas convicções, como acontece na actual legislação.
Para terminar, penso que cumpri o meu dever de cidadão, ao denunciar uma situação que penso ser digna de denúncia, por se tratar de uma demonstração de sectarismo e, atrever-me-ia a dizê-lo, de fanatismo, em pleno século XXI.