terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Cleptocracia




Uma vez, alguém disse que existem várias formas do Estado se organizar. Pode ser uma Democracia, uma Ditadura; pode ser Socialista, Capitalista, etc... mas esqueceu-se da palavra que define a organização e a estrutura de certos estados: cleptocracia.

Quando o Estado angolano quase vai à falência e precisa de ajuda do FMI (2016) fica muito difícil dizer que é a saúde, a educação e as pensões de reforma que levam o dinheiro todo, sob pena de um descaramento primário.

Então, preferiram dizer que a "culpa" foi da baixa do preço do petróleo (a partir de 2014) e posteriormente, da corrupção.

Ninguém abandona o poder de livre vontade. Ponto.

Principalmente se for um autocrata, eleito de forma muito duvidosa e com uma clientela oligárquica cuja sobrevivência depende da continuidade de certo indivíduo na presidência.

Mas devido à gravidade da crise económica e financeira de 2016, Zedu deixou de ter condições políticas para se manter no poder, sendo este o verdadeiro e único motivo para a sua saída, pois a teoria do "estou velho, cansado e doente" não passa de um mito.

É que com a sua saída do poder, essa elite clientelar e cleptocrática que dele dependia, também se viu forçada a abandonar as estruturas desse mesmo poder; sendo substituída por uma outra elite com as mesmas características, sedenta de revanchismo e como é evidente, também ansiosa de pôr as mãos nos já depauperados recursos ao Estado angolano.


Em 2017 assistimos à mudança na presidência e à mudança dos protagonistas, mas sem que o regime de cleptocracia terminasse.

Não obstante, o sentimento de vingança e a necessidade de encontrar "culpados" pela crise económica de 2016, a fim de perpetuar o MPLA no poder, levou a atual elite angolana a dar caça a tudo o que "cheire" a Zedu.

Como é evidente, só com uma ingenuidade de bradar aos céus é possível acreditar que quem começa a vida vendendo ovos é capaz de construir um império empresarial somente com o seu mérito.

Ao darem entrevistas na televisão, só mostraram uma arrogância reveladora do quanto são culpadas pela depredação dos recursos que deveriam ser de todos os angolanos.

E ainda falta sabermos das relações perigosas entre essa mesma pessoa e as elites políticas e económicas portuguesas, algo que dificilmente verá a luz do dia, sob pena de explosão.

Na economia portuguesa, nos próximos meses, é de temer que tenhamos mais um banco para resgatar, fruto dessas mesmas relações perigosas entre os cleptocratas "d'aquém e d'além mar".

Atendendo a cobardia e à docilidade com que as autoridades portuguesas tratam dos assuntos angolanos, será um assunto pacífico: pagaremos e não bufaremos, com a comunicação social, alguma dela controlada por angolanos, a calar devidamente o assunto.

O problema é que, tanto em Portugal, como principalmente em Angola, os únicos que são realmente inocentes no meio disto tudo, são os que sofrem as conseqüências destes jogos de poder entre duas pseudo-elites que vivem do saque e não do tal mérito que tanto apregoam ter.

domingo, 5 de janeiro de 2020

O Preço da Loucura




Nunca Trump se descreveu a si próprio de modo tão sucinto: egoísmo, soberba, arrogância e falta de humildade de alguém que prefere sempre a força bruta à negociação, ao acordo escrito ou ao respeito.

Está a precisar de uma lição de humildade e de humanidade, que o faça ver que o mundo não lhe pertence e que não faz o que quer.

Não obstante a verborreia de taberna, é impossível não reparar no dinheiro que os Estados Unidos gastam em defesa: Dois triliões de dólares, dados a ganhar a uma indústria de armamento sedenta por uma nova guerra, para conseguir novas vendas, contratos e lucros, tudo à custa do sofrimento humano de civis inocentes.

Dois triliões de dólares… quantos problemas a Humanidade não resolveria com essa quantia? Das alterações climáticas à pobreza, passando pelo combate a variadíssimas doenças ainda sem cura.

Quanto sofrimento humano não termina? Quanta exploração laboral? Quanta fome? Quantas crianças sem escola? Quantas vítimas de doenças tratáveis?

Quanto a Humanidade não progride e evolui, só para que Trump, os Estados Unidos e a sua indústria de armamento possam continuar a lucrar?

Simplesmente pornográfico.

A fim de desviar as atenções dos Estados Unidos e do mundo em relação ao seu processo de destituição, Trump optou por uma política externa agressiva, quase que provocando deliberadamente uma guerra, algo de conseqüências que ele e o seu incompetente staff são totalmente incapazes de controlar e de medir.

A irracional escalada de tensão e de retaliações, por ambos os lados, poderá originar uma guerra devastadora, cujos intervenientes não serão somente os Estados Unidos e o Irão.

Fazer uma guerra tem o seu preço e Trump parece não ter a noção que uma guerra com o Irão fará os Estados Unidos e os seus políticos pagar um preço demasiado alto para ser admissível.

Não só um preço económico e político, mas também um preço militar, humano e até geopolítico; em resumo, o que os Estados Unidos supostamente beneficiarão numa previsível vitória é muito menos do que o preço que pagarão pela mesma, concluindo-se pelo bom senso (que não impera) que não compensa fazer a guerra.

E se Trump não tem a noção disto, não passa de um louco sem condições para ser Presidente dos Estados Unidos.

Se os Estados Unidos vencerem uma guerra contra o Irão, controlando o seu petróleo e o Estreito de Ormuz, por onde passa a maioria do petróleo mundial, ganharão uma vantagem geoestratégica decisiva sobre a Rússia e a China, criando um enorme desequilíbrio de forças entre as superpotências, algo que será considerado intolerável por russos e por chineses.

Desta forma, só restará à Rússia e à China irem até às últimas conseqüências, para impedir os norte-americanos de obter essa supremacia, existindo a possibilidade real de ambos agirem militarmente contra dos Estados Unidos da América, caso estes ataquem o Irão.

Demasiado grave.

É urgente que impere a racionalidade e o bom-senso, sob pena da eclosão de uma guerra entre as grandes potências, algo que não acontece desde o final da II Guerra Mundial, em 1945.

Guerra essa que todos perderão, nem é necessário referir o motivo.

sábado, 4 de janeiro de 2020

O mapa fascista




Atendendo ao historial de desejo anexionista do fascismo espanhol, é impossível considerar este mapa peninsular do Vox um mero lapso ou sequer falta de jeito para desenhar.

Herdeiro político de Franco, tenta o Vox concretizar o projeto de anexação de Portugal, equacionado pelo sátrapa em 1940 e em 1975, possuindo a mesma visão de nação imperial do fascismo clássico.

Não são raros os académicos espanhóis afectos a Franco, que consideram a perda de Portugal, em 1640, de um "error histórico", pois opinam que Olivares (Primeiro-Ministro do Rei Filipe IV) deveria ter priorizado sufocar a revolta em Portugal, do que reprimir a da Catalunha, como veio a acontecer.

E se forem bem "puxados" na conversa, continuam a defender a anexação de Portugal, propondo a colocação da capital em Lisboa, para nos "prender pelo cachaço" (Filipe II fez isso, logo a seguir a 1580), e o uso da bandeira do antigo Reino de Aragão (por ser a mais antiga).

Ventura ou Salazar são fascistas, mas em comparação com o extremismo exposto no parágrafo anterior, não passam de meros aprendizes de feiticeiro!

Como é público, existem políticos portugueses que não vêem no Vox um partido fascista; são os mesmos a quem lhes deveria ser aberta uma janela, para voarem no sentido inverso de Carrero Blanco, seguindo o exemplo de Vasconcelos.

É que mais grave que traírem Portugal, traem a liberdade, a democracia, a diversidade peninsular e a tolerância para com todos os povos, ibéricos e não só.

Se existe lição que a História nos dá, é que a mesma não tem factos consumados nem dados adquiridos, sendo o seu devir eterno e imprevisível.

O que hoje pode parecer algo sem sentido, amanhã poderá tornar-se uma inevitabilidade, cabendo-nos a nós zelar para que continue a ser um disparate.

Sabemos que a economia globalizada se tornou demasiado forte para que sejam necessárias invasões militares clássicas; mas também sabemos que essa mesma globalização também proporciona um mais fácil contágio das mentes com ideias de ódio, de intolerância, de racismo e de fascismo, com a sua inevitável componente nacionalista e imperialista, causadora de tanto sofrimento humano ao longo dos milénios.

Que com este mapa, o Governo português aprenda a lição e se saiba colocar do lado certo da História, sempre que trata a questão da Catalunha como um mero "assunto interno", traindo Aragão e Catalunha, os nossos aliados históricos na luta contra a hegemonia de Castela na península.

Que com este mapa, muitos que se dizem nacionalistas, mas ao mesmo tempo apregoam a “unidad de España” na questão catalã, percebam a ridícula contradição em que caem.

A libertação dos povos peninsulares não está na anexação de Portugal por Espanha, pelo contrário, isso seria o perpetuar do franquismo, do fascismo e da opressão.

A libertação de portugueses, galegos, asturianos, bascos, catalães, aragoneses, leoneses, castelhanos e andaluzes, encontra-se numa Ibéria de povos, federal, republicana e solidária, sem o Bourbon e sem partidos fascistas.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Que 2020 teremos?




Num mundo cada vez mais dinâmico e caprichoso, em que tudo muda com a facilidade de um “click”, fazer previsões sobre o dia seguinte torna-se num ato de coragem, pelo elevado risco de falibilidade.

Nunca sabemos se a qualquer momento, ao ligar a internet ou ao colocar o televisor num canal de notícias, aparece o já célebre chavão de “última hora” ou “breaking news”, sempre susceptível de fazer desabar um mundo e de erguer outro.

Todas as previsões, palpites, adivinhações ou lá o que lhes quiserem chamar, por muito racionais que pretendam ser, serão sempre baseadas nos dados disponíveis no momento em que são feitas, algo que poderá mudar totalmente no segundo seguinte.

Após o resultado das últimas eleições britânicas, o “brexit” tornou-se irreversível, apesar de continuarmos sem saber em que moldes se consumará; o elemento novo é a confirmação nas urnas da vontade de sair dos britânicos e a legitimação, nessas mesmas urnas, da possibilidade de uma saída à bruta que não beneficiará ninguém, a começar por quem votou nos Tories de Johnson.

Serão os moldes como esse “brexit” se consumará a determinar se em 2020 assistiremos ao início da desagregação do Reino Unido, com Edimburgo a trocar a suserania de Londres pela de Berlim e com um possível recrudescer do conflito na Irlanda do Norte, em que a maioria protestante terá muito poucos argumentos para continuar presa a uma Inglaterra que lhe imporá cada vez maiores entraves comerciais.

Quanto à União Europeia e ao Euro, continuarão ambos dependentes do impasse em que se tornou a política interna alemã, com uma Chanceler politicamente fraca e a prazo, mas que ninguém deseja ver sair, sob pena de uma ingovernabilidade interna, de cujo caos poderão sair vitoriosos partidos nazis de má memória para a Alemanha e para o mundo.

Aproveita Macron a momentânea fraqueza alemã para impor a França como potência dominante na Europa, algo que será passageiro e que só durará até ao surgimento de uma nova liderança política forte do outro lado do Reno, qualquer que ela seja, o que pulverizará a França do lugar cimeiro na Europa, subalternizando-a de novo aos interesses prussianos.

Quanto aos Estados Unidos de Trump, o mesmo sobreviverá ao processo de destituição num exercício de vitimização que o poderá catapultar para a reeleição em Novembro.

Tenderá depois disso a uma política externa ainda mais agressiva, a fim de unir o país em torno de si, o que poderá levar os Estados Unidos a uma nova guerra, desta vez, na Venezuela, alvo militarmente mais fácil e em conformidade com a doutrina Monroe, e de conseqüências internacionais menores que um ataque ao Irão, pois antes de agredir militarmente a Venezuela, os Estados Unidos já cumpriram o objetivo de colocar nos restantes países sul-americanos governos fiéis e dóceis, isolando política e militarmente o regime de Maduro.

À excepção da América Latina, a perda de influência dos Estados Unidos no mundo acentuar-se-á e a sua decadência coincidirá com uma ascensão da China, que não mais permitirá intervenções norte-americanas na Coreia ou até em Taiwan, questão também por resolver e cuja possibilidade de se tornar num “casus belli” entre ambas as potências é ainda maior que o regime de Kil-Jong-Un.

A crescente fraqueza americana também será aproveitada pela Rússia de Putin, que consolidará a sua posição no Médio Oriente através do governo fantoche sírio de Al-Assad, por si patrocinado e através do Irão, necessitado de um aliado forte para se contrapor a Israel e a Arábia Saudita.

Também na Europa Putin beneficiará da detonação da NATO feita por Trump (erro que, na prática, tira os Estados Unidos da Europa e da sua defesa) e da momentânea fraqueza alemã (impasse na constituição do exército europeu) para se consolidar em alguns países do antigo bloco de leste, recuperando algum (mas não todo) do poder da antiga URSS.

Quanto ao Médio Oriente, assistiremos a uma cristalização da luta entre um Irão chiita apoiado pela Rússia e uma Arábia Saudita sunita apoiada pelos Estados Unidos, com o intocável Israel a interferir na política interna norte-americana em seu proveito, a fim de consolidar a sua ilegal e odiosa anexação de territórios palestinos, ao mesmo tempo que continua a ser a única potência nuclear da zona.

O vazio de poder deixado após as desastrosas intervenções militares ocidentais no Afeganistão, no Iraque, na Síria e na Líbia continuará a originar o surgimento de proto-estados terroristas (Estado Islâmico), cujo fanatismo continuará a ameaçar o dito ocidente com atentados terroristas, sendo que a Líbia tornar-se-á num novo viveiro de fanáticos, às portas da Europa. Muito preocupante.

Quanto à Economia, as (por alguns) desejadas nuvens negras começam a perfilar-se no horizonte, a fim de servirem de justificação a novas medidas de austeridade em cima da classe média, cuja conseqüência será a caída desta nos braços dos partidos fascistas e nazis que vão surgindo, correndo o risco de mergulhar o mundo numa noite negra e longa de fascismo.

Já sabem: os liberais tomam as medidas de austeridade a fim de auxiliar a banca e de lhe paliar os abusos, mas a “culpa” será sempre dos imigrantes, dos ciganos, dos gays e dos refugiados. Burro de quem acredita neste discurso. Sem mais delongas neste assunto.

Finalmente, quanto a Portugal… sabemos não estar a oposição em condições de disputar eleições tão depressa, o que fará com que o nível de tolerância da mesma em relação aos orçamentos de Estado do Centeno seja enorme.

Mas também sabemos da tentação do PS em tentar uma maioria absoluta ao primeiro tropeção da oposição em matéria de viabilização do orçamento; nesta situação, Costa não só tentará a maioria, como terá o argumento perfeito para se desembaraçar de Centeno…

Um jogo do “gato e do rato” que não augura nada de bom, nomeadamente com o surgimento meteórico de um partido fascista, que se lhe continuarem a inflacionar a influência que atualmente tem, a breve prazo, adquirirá capacidade para ditar as suas regras no jogo político lusitano.

Muito preocupante. Que fique o aviso.

Uma última palavra para as alterações climáticas: os países ricos e as classes abastadas continuarão a poluir e a lucrar com isso, enquanto os países pobres e as classes desfavorecidas continuarão a levar com as piores conseqüências.

Mesmo em caso de cataclismo climático essa situação não se alterará, pois confesso que a minha fé no ser humano já foi maior.

Um Feliz Ano Novo para todos, se puderem.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A vitória do "brexit" a todo o custo



Goste-se ou não, Boris Johnson e o seu “brexit” a todo o preço, foram os vencedores incontestáveis das eleições britânicas, ficando os deputados “tories”, agora eleitos e vitoriosos, sem condições políticas para continuar a arrastar a questão da saída da União Europeia para as calendas, como têm feito até agora.


É que ao contrário das últimas eleições – Junho de 2017 – em que o eleitorado pareceu recuar na opção pelo “brexit”, a escolha de ontem é inequívoca pela saída do Reino Unido da União Europeia, tanto em Inglaterra como no País de Gales.

O Partido Conservador, sob a liderança de Boris Johnson e sob o signo do “brexit”, recupera a maioria absoluta perdida em 2017, assumindo a responsabilidade de levar a bom termo essa mesma saída da União Europeia, que parece ter-se tornado irreversível com a votação de ontem, ficando somente por saber como e quando a mesma acontecerá.

Não obstante, após falharem estrondosamente na tentativa de reversão do referendo que ditou o “brexit”, o preço que Berlim e Bruxelas se preparam para cobrar pela ousadia da saída será o mais alto possível, a fim de desencorajar futuros “exits”, mesmo que isso provoque uma recessão económica na Europa, o que faz adivinhar um arrastamento das negociações até níveis ridículos e surreais, não sendo de excluir uma saída sem acordo, prejudicial para todas as partes envolvidas.

A acontecer, essa saída desordenada estará politicamente coberta pelas eleições de ontem, pois os eleitores britânicos, ao votarem pelo “brexit” de Johnson, também terão que assumir as suas responsabilidades pelas conseqüências de um não acordo.

Venceu a demagogia e o populismo de Johnson e venceu a xenofobia, motores desse mesmo “brexit”, o que constitui mais um sintoma do avanço da extrema-direita europeia, com todos os perigos que isso acarreta para a sobrevivência da Democracia e pelo respeito e tolerância por tudo o que seja diferente dos padrões sociais maioritários, começando na cor da pele e terminando na orientação sexual.

Os trabalhistas de Corbyn, foram castigados pelo modo ambíguo e indefinido com que trataram a questão do “brexit”, pois nunca chegámos a saber o que o Labour faria para resolver a questão, caso fosse governo; provavelmente, nem eles próprios saberiam.

Mas o mais grave foi o facto de os eleitores britânicos terem rejeitado os programas económicos e sociais de cariz social-democrata propostos por Corbyn, em mais um sintoma da viragem socialmente conservadora e economicamente ultraliberal que vive a Europa, antecâmara de soluções de governação fascizantes e autoritárias, que não auguram nada de bom para a justiça e coesão sociais.

Com a queda interna de Corbyn, ganhará força no Partido Trabalhista a corrente inspirada no “new labour” de Tony Blair, que em nada difere dos seus rivais conservadores, tanto na economia como no social; o que significa que teremos um Labour que deixará de ser alternativa aos desvairos ultraliberais dos “tories” de Johnson, inspirados em Thatcher.

Foram derrotados todos os que advogaram pela permanência do Reino Unido, a começar pelos Liberais-Democratas, que vêm a sua presença em Westminster reduzida à insignificância.

Uma última palavra para a Escócia, que ao rejeitar a saída da União Europeia em 2016, e ao votar esmagadoramente pelo SNP, poderá estar a maturar um sentimento de independência com condições de se concretizar, caso esse mesmo “brexit” se realize sem acordo e/ou com conseqüências na economia e na vida real de uns escoceses que poderão cair na tentação de trocar a tutela de Londres pela de Berlim.

Será interessante ver a União Europeia apoiar a independência da Escócia, comparando com o que essa mesma União Europeia fez com a Catalunha, num exercício de hipocrisia política primária, usando dois pesos e duas medidas.

As eleições de ontem marcam uma viragem à direita do eleitorado britânico, dando um apoio inequívoco ao “brexit” de Johnson e castigando severamente a ambigüidade dos trabalhistas em relação a essa mesma questão.

Que os britânicos não se arrependam da votação se ontem, pois poderão ter aberto uma “caixa de Pandora”, não só em relação às conseqüências sua saída da União Europeia, como também quanto à continuidade da existência do Reino Unido, tal como o conhecemos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Chega de Fascismo




“Chega”, terceira pessoa do singular no presente do indicativo do verbo “chegar”, no sentido de que basta, já é demasiado, não queremos mais; provavelmente, nem sequer deveria ter existido.

O ressurgimento de movimentos fascistas tornou-se numa triste realidade, irrefutável em toda a Europa, para infelicidade e desgraça de todos nós.

Negar ou desvalorizar esse reaparecimento torna-se num ato de cumplicidade, favorável a todos os que pretendem mergulhar o continente numa longa noite de trevas.

É imperioso lembrar que os movimentos fascistas atuais possuem todas as características do fascismo clássico dos anos trinta do século XX, apesar de muitos deles ainda não assumirem alguns desses traços.

Os partidos fascistas dizem ser anti-ideológicos, isto é, afirmam não ter ideologia, a fim de se colocarem a si próprios acima dos restantes partidos, nomeadamente dos marxistas e dos liberais; o que é totalmente falso, pois o fascismo tem uma ideologia.

Os fascistas defendem um estado forte e totalitário de partido único, suprimindo toda e qualquer oposição, não deixando espaço para a Democracia, que desprezam, ou para o parlamentarismo, que culpam por muitos dos males do mundo; preferindo antes um Duce ou um Führer com plenos poderes, sem nada que limite e controle a governação.

Lembrem-se disto, quando certos partidos fascistas proporem a redução do número de deputados ou soluções presidencialistas, pois mais não estão que a retirar poderes e importância ao parlamento, para os atribuir a um governo presidencialista forte.

O fascismo possui uma fortíssima componente nacionalista, intransigente na defesa da pureza e da suposta superioridade da raça e da cultura nacionais, não tolerando tudo o que é diferente. Sim, são racistas.

Os fascistas negam o conceito marxista da luta de classes, como se um patrão milionário vivesse no mesmo mundo e tivesse os mesmos interesses que um trabalhador humilde, substituindo-o pelo conceito do “interesse nacional”, sob a capa do qual defendem os interesses das elites, perpetuando-lhes o poder e vedando a mobilidade social à restante população.

Normalmente, são essas mesmas elites que favorecem a tomada do poder pela parte dos movimentos fascistas, nomeadamente quando os partidos da chamada democracia parlamentar, de ideologia liberal e burguesa, deixam de ter capacidade para lhes defender os interesses.

Isto é, para os empresários, patrões e capatazes, não interessa que o regime seja democrático ou não, desde que lhes defenda os privilégios; somente acenam com a superioridade moral da Democracia se isso lhes for conveniente e jamais por convicção ideológica ou escala de valores.

Pelo menos até agora, os movimentos fascistas não possuíam uma das componentes que mais os caracterizou, nos anos trinta do século XX: a posse de uma milícia armada, de inspiração paramilitar, que dominasse as ruas, espalhando a coação, o terror e violência em cima de todos os adversários do partido fascista, tal como fizeram as SS ou as SA (até 1934) na Alemanha nazi, ou os Camisas Negras na Itália de Mussolini.

Por isso mesmo, é com preocupação que assistimos à infiltração de movimentos fascistas nas forças militarizadas, possível embrião de uma espécie de tropa de choque, ao serviço da mais infame das causas.

Não é especulação nem alarmismo; é antes constatar que todos os movimentos acima descritos surgem quase sempre a partir do “zero”, evoluindo posteriormente para organizações ao serviço da ideologia fascista, que quando se tornam um perigo evidente, será sempre demasiado tarde para as travar.

Que a História não se repita, apesar da evidência de que neste século XXI, continuamos a repetir os mesmos erros de há oitenta anos atrás: um capitalismo selvagem que não olha a nada nem a ninguém, aliado à desvalorização geral dos sinais de perigo vindos da extrema-direita.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Golpe de Estado




Vivemos no hipócrita mundo dos eufemismos, em que todos sabemos o que aconteceu, mas ninguém se atreve a chamar as coisas pelos nomes, a fim de não reconhecer publicamente a sua cumplicidade, seja a mesma ativa ou silenciosa.

Sejamos honestos e diretos: se os chefes militares “sugerem” a renúncia de um Presidente em funções, estamos na presença, não de uma moção de censura ou processo de destituição, mas de um Golpe de Estado.

Após a “sugestão” dos generais, Morales iria sair a bem ou a mal, não nos desenganemos.

Ao demitir-se, evitou um banho de sangue e terá salvo a sua própria vida, provando ter sentido de Estado até ao fim.

Acontecesse isto noutras circunstâncias ou com outros presidentes, zelosas e democráticas vozes não se calariam, exigindo a “reposição da legalidade democrática e constitucional”, acenando com sanções políticas e económicas, podendo haver quem chegasse ao ponto de ameaçar com saraivadas de mísseis. Sabemos quem ele é.

Mas como é um Presidente de Esquerda que se vai, num dos principais países exportadores de gás, preferimos calar e assobiar para o lado, fingindo que não aconteceu.

O poder económico e os seus lobbies com influência comprovada na condução da política externa dos estados mais poderosos, tem perfeita consciência que estamos em 2019 e que bombardear La Moneda será sempre a última das soluções; porque sabem que lhes fica mal, que não é politicamente correto e que é feio os telejornais abrirem com isso.

O que não significa que os presidentes que governem fora dos tentáculos do polvo económico mundial não possam ser destituídos para interesse dessa mesma fera, de preferência sob o verniz da legalidade, tal como aconteceu com Fernando Lugo no Paraguai (2012) ou com Dilma Rousseff no Brasil (2016).

Somente caso essa legalidade cosmética não seja possível, se recorrem a outros meios, tal como já aconteceu com Zelaya nas Honduras (2009) e agora, com Morales (2019); comprovando que em último recurso, os militares continuam tendo a última palavra na resolução das crises políticas internas dos países da América Latina, sem que o chamado “mundo livre” se incomode com isso.

E não se incomoda, porque sabe que é dessa forma que os interesses das suas multinacionais ficarão assegurados, em prejuízo das populações autóctones, num exercício de hipocrisia primária.

Os acontecimentos na Bolívia comprovam que, devido à riqueza em matérias-primas e em recursos naturais, transformada em maldição, as multinacionais ocidentais continuam a interferir na política doméstica dos países latino-americanos, recorrendo a todos os meios para fazer valer os seus interesses.

E se não lhes for possível fazer legalmente, fazem-no de qualquer das formas, descaradamente ou às escuras.

Fica a restar a Venezuela, que apesar de não ser um exemplo de Democracia, fica agora isolada politicamente no ambiente sul-americano, debilidade que a tornará no próximo alvo.

A Direita pula e avança, numa América Latina que se quer de povos e para os povos, para que se cumpra.

Vale tudo, irá valer tudo.