segunda-feira, 19 de maio de 2025

Desastre Eleitoral - Pequenas reflexões

 

Estão a ver aquela pessoa que mora na periferia de Lisboa, que anda de transportes públicos ou de automóvel e demora duas horas para chegar ao emprego? E outras duas horas para voltar?

E que quando chega ao emprego é usada e abusada pelo patrão ou pela chefia, sem ter como se defender? Pois a lei laboral é favorável ao patrão e a estrutura sindical é inexistente na maioria dos casos?

E que paga uma renda de casa altíssima se tiver algum crédito à habitação?

Ou passa a vida a mudar de casa, cada vez para mais longe da cidade, porque lhe aumentam brutalmente a renda?

E que quando está doente, nem sequer tem médico de família e passa doze horas no banco de urgência do hospital e ainda arrisca pagar Taxa Moderadora por utilizar a urgência?

E que ainda arrisca ser assaltada quando anda na rua porque, perdoem-me, a insegurança existe!

E que trabalhará até aos 70 anos para receber uma reforma de miséria?

Enquanto os partidos da Esquerda vivem no seu mundo e levantam questões (e se mobilizam pelas mesmas) que não dizem absolutamente nada ao cidadão de perfil que referi, são estas pessoas que estão a votar no Chega, que se tornam vulneráveis ao seu discurso e que o irão levar ao poder, mais depressa do que todos pensamos.

Ou a Esquerda volta a assumir a sua matriz ideológica de luta de classes, de combate à pobreza, à exclusão social e à desigualdade, e de maior eqüidade na distribuição da riqueza gerada, ou está condenada a desaparecer no cemitério da História, deixando aos partidos de extrema-direita o protagonismo da oposição (numa primeira fase) e da governação (brevemente) com conseqüências de retrocesso histórico das economias, das sociedades, das pessoas e do mundo.

É verdade que existe na Europa e no Mundo uma espécie de devir histórico avassalador para os partidos de Esquerda, muito por culpa dos próprios por recorrerem a estratégias erróneas e erradas com resultados desastrosos, mas também por culpa de todo um sistema - da Universidade à Comunicação Social - que formata as cabeças das pessoas no sentido da Direita.

Montenegro não está a rir: é verdade que venceu as eleições, mas não cumpriu o objetivo de constituir uma maioria de governação estável, mais não fosse, com a IL, fazendo com que a AD tivesse tido uma vitória agridoce.

Quanto ao PS, na longa ressaca pela saída de António Costa, sofreu uma das maiores derrotas da sua história, ainda por cima, estando na oposição! Tem demasiadas coisas para rever, a começar pela sua ambivalência entre uma matriz ideológica que se diz de Esquerda e a sua promiscuidade com o poder económico, digna de qualquer partido de Direita liberal.

O Chega é o único partido que se pode realmente rir dos resultados eleitorais: aumenta a votação, aumenta o número de deputados e cria uma base eleitoral que lhe possibilita assaltar o poder dentro de muito em breve.

A IL teve um bom resultado, mas não cumpre o objetivo de formar uma maioria de Direita liberal com o PSD; não obstante, sente-se confortável com a sua posição de oposição de Direita a Montenegro.

À Esquerda, Rui Tavares é o único que tem feito o "trabalho de casa", mostrando algumas preocupações com o cidadão comum e com a questão laboral - por conseguinte, é o LIVRE o único partido de Esquerda que sobe.

O PCP continua a sua lenta agonia e definhamento, com a eleição seguinte a ter um resultado ligeiramente inferior ao da eleição anterior: tinha 4 deputados, passa a 3. Enquanto a geração do 25 de Abril desaparece pela lei da vida, o PCP foi incapaz de se renovar e de seduzir novos eleitores - os que ainda tem são fiéis, mas estão a morrer, daí que até no definhamento o PCP é consistente.

O BE sofreu uma catástrofe! Ao ter o seu pior resultado de sempre e ao eleger uma única deputada, corre o risco de desaparecer no cemitério da História.

Quando a possibilidade de desaparecer do Parlamento era real, eis que o PAN consegue agüentar-se; por conseguinte, a noite eleitoral acabou por lhe ser simpática.