sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A vitória do "brexit" a todo o custo



Goste-se ou não, Boris Johnson e o seu “brexit” a todo o preço, foram os vencedores incontestáveis das eleições britânicas, ficando os deputados “tories”, agora eleitos e vitoriosos, sem condições políticas para continuar a arrastar a questão da saída da União Europeia para as calendas, como têm feito até agora.


É que ao contrário das últimas eleições – Junho de 2017 – em que o eleitorado pareceu recuar na opção pelo “brexit”, a escolha de ontem é inequívoca pela saída do Reino Unido da União Europeia, tanto em Inglaterra como no País de Gales.

O Partido Conservador, sob a liderança de Boris Johnson e sob o signo do “brexit”, recupera a maioria absoluta perdida em 2017, assumindo a responsabilidade de levar a bom termo essa mesma saída da União Europeia, que parece ter-se tornado irreversível com a votação de ontem, ficando somente por saber como e quando a mesma acontecerá.

Não obstante, após falharem estrondosamente na tentativa de reversão do referendo que ditou o “brexit”, o preço que Berlim e Bruxelas se preparam para cobrar pela ousadia da saída será o mais alto possível, a fim de desencorajar futuros “exits”, mesmo que isso provoque uma recessão económica na Europa, o que faz adivinhar um arrastamento das negociações até níveis ridículos e surreais, não sendo de excluir uma saída sem acordo, prejudicial para todas as partes envolvidas.

A acontecer, essa saída desordenada estará politicamente coberta pelas eleições de ontem, pois os eleitores britânicos, ao votarem pelo “brexit” de Johnson, também terão que assumir as suas responsabilidades pelas conseqüências de um não acordo.

Venceu a demagogia e o populismo de Johnson e venceu a xenofobia, motores desse mesmo “brexit”, o que constitui mais um sintoma do avanço da extrema-direita europeia, com todos os perigos que isso acarreta para a sobrevivência da Democracia e pelo respeito e tolerância por tudo o que seja diferente dos padrões sociais maioritários, começando na cor da pele e terminando na orientação sexual.

Os trabalhistas de Corbyn, foram castigados pelo modo ambíguo e indefinido com que trataram a questão do “brexit”, pois nunca chegámos a saber o que o Labour faria para resolver a questão, caso fosse governo; provavelmente, nem eles próprios saberiam.

Mas o mais grave foi o facto de os eleitores britânicos terem rejeitado os programas económicos e sociais de cariz social-democrata propostos por Corbyn, em mais um sintoma da viragem socialmente conservadora e economicamente ultraliberal que vive a Europa, antecâmara de soluções de governação fascizantes e autoritárias, que não auguram nada de bom para a justiça e coesão sociais.

Com a queda interna de Corbyn, ganhará força no Partido Trabalhista a corrente inspirada no “new labour” de Tony Blair, que em nada difere dos seus rivais conservadores, tanto na economia como no social; o que significa que teremos um Labour que deixará de ser alternativa aos desvairos ultraliberais dos “tories” de Johnson, inspirados em Thatcher.

Foram derrotados todos os que advogaram pela permanência do Reino Unido, a começar pelos Liberais-Democratas, que vêm a sua presença em Westminster reduzida à insignificância.

Uma última palavra para a Escócia, que ao rejeitar a saída da União Europeia em 2016, e ao votar esmagadoramente pelo SNP, poderá estar a maturar um sentimento de independência com condições de se concretizar, caso esse mesmo “brexit” se realize sem acordo e/ou com conseqüências na economia e na vida real de uns escoceses que poderão cair na tentação de trocar a tutela de Londres pela de Berlim.

Será interessante ver a União Europeia apoiar a independência da Escócia, comparando com o que essa mesma União Europeia fez com a Catalunha, num exercício de hipocrisia política primária, usando dois pesos e duas medidas.

As eleições de ontem marcam uma viragem à direita do eleitorado britânico, dando um apoio inequívoco ao “brexit” de Johnson e castigando severamente a ambigüidade dos trabalhistas em relação a essa mesma questão.

Que os britânicos não se arrependam da votação se ontem, pois poderão ter aberto uma “caixa de Pandora”, não só em relação às conseqüências sua saída da União Europeia, como também quanto à continuidade da existência do Reino Unido, tal como o conhecemos.