Goste-se
ou não, Boris Johnson e o seu “brexit” a todo o preço, foram os vencedores
incontestáveis das eleições britânicas, ficando os deputados “tories”, agora
eleitos e vitoriosos, sem condições políticas para continuar a arrastar a
questão da saída da União Europeia para as calendas, como têm feito até agora.
É
que ao contrário das últimas eleições – Junho de 2017 – em que o eleitorado
pareceu recuar na opção pelo “brexit”, a escolha de ontem é inequívoca pela
saída do Reino Unido da União Europeia, tanto em Inglaterra como no País de
Gales.
O
Partido Conservador, sob a liderança de Boris Johnson e sob o signo do
“brexit”, recupera a maioria absoluta perdida em 2017, assumindo a responsabilidade
de levar a bom termo essa mesma saída da União Europeia, que parece ter-se
tornado irreversível com a votação de ontem, ficando somente por saber como e
quando a mesma acontecerá.
Não
obstante, após falharem estrondosamente na tentativa de reversão do referendo
que ditou o “brexit”, o preço que Berlim e Bruxelas se preparam para cobrar pela
ousadia da saída será o mais alto possível, a fim de desencorajar futuros “exits”,
mesmo que isso provoque uma recessão económica na Europa, o que faz adivinhar
um arrastamento das negociações até níveis ridículos e surreais, não sendo de
excluir uma saída sem acordo, prejudicial para todas as partes envolvidas.
A
acontecer, essa saída desordenada estará politicamente coberta pelas eleições
de ontem, pois os eleitores britânicos, ao votarem pelo “brexit” de Johnson,
também terão que assumir as suas responsabilidades pelas conseqüências de um
não acordo.
Venceu
a demagogia e o populismo de Johnson e venceu a xenofobia, motores desse mesmo
“brexit”, o que constitui mais um sintoma do avanço da extrema-direita
europeia, com todos os perigos que isso acarreta para a sobrevivência da
Democracia e pelo respeito e tolerância por tudo o que seja diferente dos
padrões sociais maioritários, começando na cor da pele e terminando na
orientação sexual.
Os
trabalhistas de Corbyn, foram castigados pelo modo ambíguo e indefinido com que
trataram a questão do “brexit”, pois nunca chegámos a saber o que o Labour
faria para resolver a questão, caso fosse governo; provavelmente, nem eles
próprios saberiam.
Mas
o mais grave foi o facto de os eleitores britânicos terem rejeitado os
programas económicos e sociais de cariz social-democrata propostos por Corbyn,
em mais um sintoma da viragem socialmente conservadora e economicamente
ultraliberal que vive a Europa, antecâmara de soluções de governação
fascizantes e autoritárias, que não auguram nada de bom para a justiça e coesão
sociais.
Com
a queda interna de Corbyn, ganhará força no Partido Trabalhista a corrente
inspirada no “new labour” de Tony Blair, que em nada difere dos seus rivais
conservadores, tanto na economia como no social; o que significa que teremos um
Labour que deixará de ser alternativa aos desvairos ultraliberais dos “tories”
de Johnson, inspirados em Thatcher.
Foram
derrotados todos os que advogaram pela permanência do Reino Unido, a começar
pelos Liberais-Democratas, que vêm a sua presença em Westminster reduzida à
insignificância.
Uma
última palavra para a Escócia, que ao rejeitar a saída da União Europeia em
2016, e ao votar esmagadoramente pelo SNP, poderá estar a maturar um sentimento
de independência com condições de se concretizar, caso esse mesmo “brexit” se
realize sem acordo e/ou com conseqüências na economia e na vida real de uns
escoceses que poderão cair na tentação de trocar a tutela de Londres pela de Berlim.
Será
interessante ver a União Europeia apoiar a independência da Escócia, comparando
com o que essa mesma União Europeia fez com a Catalunha, num exercício de hipocrisia
política primária, usando dois pesos e duas medidas.
As
eleições de ontem marcam uma viragem à direita do eleitorado britânico, dando
um apoio inequívoco ao “brexit” de Johnson e castigando severamente a ambigüidade
dos trabalhistas em relação a essa mesma questão.
Que
os britânicos não se arrependam da votação se ontem, pois poderão ter aberto
uma “caixa de Pandora”, não só em relação às conseqüências sua saída da União
Europeia, como também quanto à continuidade da existência do Reino Unido, tal
como o conhecemos.
