Vivemos no hipócrita mundo dos
eufemismos, em que todos sabemos o que aconteceu, mas ninguém se atreve a
chamar as coisas pelos nomes, a fim de não reconhecer publicamente a sua
cumplicidade, seja a mesma ativa ou silenciosa.
Sejamos honestos e diretos: se os
chefes militares “sugerem” a renúncia de um Presidente em funções, estamos na
presença, não de uma moção de censura ou processo de destituição, mas de um
Golpe de Estado.
Após a “sugestão” dos generais,
Morales iria sair a bem ou a mal, não nos desenganemos.
Ao demitir-se, evitou um banho de
sangue e terá salvo a sua própria vida, provando ter sentido de Estado até ao
fim.
Acontecesse isto noutras
circunstâncias ou com outros presidentes, zelosas e democráticas vozes não se
calariam, exigindo a “reposição da legalidade democrática e constitucional”,
acenando com sanções políticas e económicas, podendo haver quem chegasse ao
ponto de ameaçar com saraivadas de mísseis. Sabemos quem ele é.
Mas como é um Presidente de
Esquerda que se vai, num dos principais países exportadores de gás, preferimos
calar e assobiar para o lado, fingindo que não aconteceu.
O poder económico e os seus
lobbies com influência comprovada na condução da política externa dos estados
mais poderosos, tem perfeita consciência que estamos em 2019 e que bombardear
La Moneda será sempre a última das soluções; porque sabem que lhes fica mal,
que não é politicamente correto e que é feio os telejornais abrirem com isso.
O que não significa que os
presidentes que governem fora dos tentáculos do polvo económico mundial não
possam ser destituídos para interesse dessa mesma fera, de preferência sob o
verniz da legalidade, tal como aconteceu com Fernando Lugo no Paraguai (2012)
ou com Dilma Rousseff no Brasil (2016).
Somente caso essa legalidade cosmética
não seja possível, se recorrem a outros meios, tal como já aconteceu com Zelaya
nas Honduras (2009) e agora, com Morales (2019); comprovando que em último recurso,
os militares continuam tendo a última palavra na resolução das crises políticas
internas dos países da América Latina, sem que o chamado “mundo livre” se
incomode com isso.
E não se incomoda, porque sabe
que é dessa forma que os interesses das suas multinacionais ficarão
assegurados, em prejuízo das populações autóctones, num exercício de hipocrisia
primária.
Os acontecimentos na Bolívia
comprovam que, devido à riqueza em matérias-primas e em recursos naturais,
transformada em maldição, as multinacionais ocidentais continuam a interferir na
política doméstica dos países latino-americanos, recorrendo a todos os meios
para fazer valer os seus interesses.
E se não lhes for possível fazer
legalmente, fazem-no de qualquer das formas, descaradamente ou às escuras.
Fica a restar a Venezuela, que
apesar de não ser um exemplo de Democracia, fica agora isolada politicamente no
ambiente sul-americano, debilidade que a tornará no próximo alvo.
A Direita pula e avança, numa
América Latina que se quer de povos e para os povos, para que se cumpra.
Vale tudo, irá valer tudo.
