terça-feira, 12 de novembro de 2019

Golpe de Estado




Vivemos no hipócrita mundo dos eufemismos, em que todos sabemos o que aconteceu, mas ninguém se atreve a chamar as coisas pelos nomes, a fim de não reconhecer publicamente a sua cumplicidade, seja a mesma ativa ou silenciosa.

Sejamos honestos e diretos: se os chefes militares “sugerem” a renúncia de um Presidente em funções, estamos na presença, não de uma moção de censura ou processo de destituição, mas de um Golpe de Estado.

Após a “sugestão” dos generais, Morales iria sair a bem ou a mal, não nos desenganemos.

Ao demitir-se, evitou um banho de sangue e terá salvo a sua própria vida, provando ter sentido de Estado até ao fim.

Acontecesse isto noutras circunstâncias ou com outros presidentes, zelosas e democráticas vozes não se calariam, exigindo a “reposição da legalidade democrática e constitucional”, acenando com sanções políticas e económicas, podendo haver quem chegasse ao ponto de ameaçar com saraivadas de mísseis. Sabemos quem ele é.

Mas como é um Presidente de Esquerda que se vai, num dos principais países exportadores de gás, preferimos calar e assobiar para o lado, fingindo que não aconteceu.

O poder económico e os seus lobbies com influência comprovada na condução da política externa dos estados mais poderosos, tem perfeita consciência que estamos em 2019 e que bombardear La Moneda será sempre a última das soluções; porque sabem que lhes fica mal, que não é politicamente correto e que é feio os telejornais abrirem com isso.

O que não significa que os presidentes que governem fora dos tentáculos do polvo económico mundial não possam ser destituídos para interesse dessa mesma fera, de preferência sob o verniz da legalidade, tal como aconteceu com Fernando Lugo no Paraguai (2012) ou com Dilma Rousseff no Brasil (2016).

Somente caso essa legalidade cosmética não seja possível, se recorrem a outros meios, tal como já aconteceu com Zelaya nas Honduras (2009) e agora, com Morales (2019); comprovando que em último recurso, os militares continuam tendo a última palavra na resolução das crises políticas internas dos países da América Latina, sem que o chamado “mundo livre” se incomode com isso.

E não se incomoda, porque sabe que é dessa forma que os interesses das suas multinacionais ficarão assegurados, em prejuízo das populações autóctones, num exercício de hipocrisia primária.

Os acontecimentos na Bolívia comprovam que, devido à riqueza em matérias-primas e em recursos naturais, transformada em maldição, as multinacionais ocidentais continuam a interferir na política doméstica dos países latino-americanos, recorrendo a todos os meios para fazer valer os seus interesses.

E se não lhes for possível fazer legalmente, fazem-no de qualquer das formas, descaradamente ou às escuras.

Fica a restar a Venezuela, que apesar de não ser um exemplo de Democracia, fica agora isolada politicamente no ambiente sul-americano, debilidade que a tornará no próximo alvo.

A Direita pula e avança, numa América Latina que se quer de povos e para os povos, para que se cumpra.

Vale tudo, irá valer tudo.