segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Perigosa Indefinição



É comum pensar-se que as são as eleições que clarificam a situação política de um país, pois expressam a verdadeira vontade do eleitorado no sentido da futura governação.

A excepção foram as eleições de ontem, que em vez de clarificarem, só lançaram ainda mais confusão sobre a situação política espanhola, além de confirmarem o crescimento do monstro fascista.

Esse crescimento poderá ser ainda mais alimentado pela indefinição a que a Espanha ficou ainda mais sujeita, não sendo possível identificar nenhuma outra solução de Governo, que não seja o de uma coligação PSOE-PP, partidos com mais semelhanças que diferenças.

Todas as outras possibilidades implicariam um entendimento entre vários partidos demasiado diferentes entre si, em coligações muito heterogéneas para sequer, ser possível pensar na sua viabilidade.

O PSOE tem uma vitória amarga, pois perde votos e deputados, não tendo Pedro Sánchez nenhuma solução de Governo que lhe agrade, nem sequer uma “geringonça” em versão espanhola, por insuficiência de votos dos possíveis parceiros. Diz-nos a experiência que, em política, as meias vitórias facilmente se transformam em derrotas definitivas.

Apesar de ter tido uma subida de votos e de mandatos em relação a Abril, é incontornável que o PP de Casado perde as eleições, mais uma vez; não cumprindo os objetivos a que se propôs, está condenado ao dilema de, ou se tornar na “muleta” de um futuro Governo do PSOE, sofrendo as conseqüências políticas do mesmo, ou de ficar com o ónus de lançar o país num caos político e institucional, de possíveis implicações dramáticas para a Espanha.

O Podemos e o Ciudadanos foram castigados, não só devido ao ego mesquinho dos seus respectivos líderes, como acima de tudo, por se terem rendido ao sistema que em tempos, diziam combater. Em suma, a longo prazo, ambos foram projetos que nada trouxeram de novo à política espanhola ou europeia, não passando de “mais uns”, iguais aos que já lá estavam.

Com projetos ocos e sem soluções que fossem ao encontro dos verdadeiros problemas da sociedade espanhola, tais como o desemprego, a precariedade laboral e a desigualdade de oportunidades e de distribuição da riqueza, os partidos tradicionais possibilitaram o enorme crescimento do Vox, partido de inspiração fascista e franquista, fomentador do ódio, da intolerância e do racismo, que só será frenado com uma verdadeira mudança política e económica, não ao nível da Espanha, mas ao nível europeu, pois o fenómeno do ressurgimento do fascismo é sentido em toda a Europa.

Não esquecer que estes partidos fascistas têm em todos os excluídos e prejudicados pelas políticas neoliberais o seu filão de votantes, sem que a Esquerda europeia tenha vontade política de colocar em causa esse mesmo neoliberalismo económico.

E enquanto isso não acontecer, nuvens muito negras se perfilam no horizonte, tanto espanhol como europeu, sendo real a possibilidade de uma longa e dolorosa noite fascista.