segunda-feira, 9 de março de 2020

Coronavírus




A disseminação do coronavírus não só nos fará lamentar os mortos pela doença, como também trará conseqüências terríveis para a civilização ocidental numa ampla e preocupante variedade de aspectos.

Para começar, a desconfiança e o medo em relação a tudo o que é estrangeiro e diferente, potenciando o racismo e a xenofobia, o que será um forte trunfo dos partidos fascistas que sempre propuseram o fecho das fronteiras e o controlo férreo sobre as atividades e as deslocações da população.

Quando os governos se preparam para fazer isso mesmo, não faltarão os que disseram “eu avisei”; resta lembrar os distraídos que eles “avisaram”, não porque previssem um qualquer coronavírus a fim de proteger a população, mas antes devido ao seu ódio a tudo quanto é pele morena e pobre.

A epidemia servirá de justificação para a restrição e inclusive, a supressão de liberdades que nós tínhamos como um dado adquirido, tais como a liberdade de deslocação, do exercício de uma profissão, da expressão de uma opinião e até, do direito a ter uma vida pessoal; é que tudo se tornará susceptível de ser sujeito a escrutínio e motivo de desconfiança uns dos outros, desde um espirro ao esconder de outra coisa qualquer, numa insuportável e mentalmente doente sociedade policial – as epidemias e o pânico que provocam na população têm o poder de ser justificação para quase todos os abusos.

Mas não ficaremos por aqui, porque no final – e a maioria de nós sobreviverá – alguém terá que pagar a conta das enormes conseqüências económicas da epidemia.

E todos sabemos que não serão os banqueiros ou os grandes empresários a pagar. Que “não foram eles os culpados pelo vírus”? A restante população também não, tal como não foi responsável pela crise financeira de 2008 mas pagou-a, como também não foi culpada pela gestão danosa dos bancos e ainda hoje os resgata.

O coronavírus servirá de pretexto para aumentar ainda mais a austeridade sobre as camadas mais pobres da população, em forma de aumento de impostos sobre o trabalho (jamais sobre o capital), no desmantelamento do que resta dos serviços públicos e numa ainda maior desregulação das leis laborais e conseqüente baixa de salários, contribuindo a epidemia, desta forma, para uma ainda maior desigualdade na distribuição da riqueza, como se não bastasse a que já existe.

Por vezes, a política é feita de sorte e de azar; o coronavírus parece ter sido feito à medida dos programas dos partidos da Direita fascista e ultraliberal, o que não augura nada de bom para a política, para a economia e para as sociedades, que ao longo dos próximos anos, pagarão o coronavírus em vidas humanas, mas também em liberdades políticas e pessoais, já para não falar no preço económico cujo ónus recairá nos mesmos de sempre.