A disseminação do coronavírus não
só nos fará lamentar os mortos pela doença, como também trará conseqüências terríveis
para a civilização ocidental numa ampla e preocupante variedade de aspectos.
Para começar, a desconfiança e o medo
em relação a tudo o que é estrangeiro e diferente, potenciando o racismo e a
xenofobia, o que será um forte trunfo dos partidos fascistas que sempre
propuseram o fecho das fronteiras e o controlo férreo sobre as atividades e as
deslocações da população.
Quando os governos se preparam
para fazer isso mesmo, não faltarão os que disseram “eu avisei”; resta lembrar
os distraídos que eles “avisaram”, não porque previssem um qualquer coronavírus
a fim de proteger a população, mas antes devido ao seu ódio a tudo quanto é
pele morena e pobre.
A epidemia servirá de
justificação para a restrição e inclusive, a supressão de liberdades que nós tínhamos
como um dado adquirido, tais como a liberdade de deslocação, do exercício de
uma profissão, da expressão de uma opinião e até, do direito a ter uma vida
pessoal; é que tudo se tornará susceptível de ser sujeito a escrutínio e motivo
de desconfiança uns dos outros, desde um espirro ao esconder de outra coisa
qualquer, numa insuportável e mentalmente doente sociedade policial – as
epidemias e o pânico que provocam na população têm o poder de ser justificação
para quase todos os abusos.
Mas não ficaremos por aqui,
porque no final – e a maioria de nós sobreviverá – alguém terá que pagar a
conta das enormes conseqüências económicas da epidemia.
E todos sabemos que não serão os
banqueiros ou os grandes empresários a pagar. Que “não foram eles os culpados
pelo vírus”? A restante população também não, tal como não foi responsável pela
crise financeira de 2008 mas pagou-a, como também não foi culpada pela gestão
danosa dos bancos e ainda hoje os resgata.
O coronavírus servirá de pretexto
para aumentar ainda mais a austeridade sobre as camadas mais pobres da
população, em forma de aumento de impostos sobre o trabalho (jamais sobre o
capital), no desmantelamento do que resta dos serviços públicos e numa ainda
maior desregulação das leis laborais e conseqüente baixa de salários,
contribuindo a epidemia, desta forma, para uma ainda maior desigualdade na
distribuição da riqueza, como se não bastasse a que já existe.
Por vezes, a política é feita de
sorte e de azar; o coronavírus parece ter sido feito à medida dos programas dos
partidos da Direita fascista e ultraliberal, o que não augura nada de bom para
a política, para a economia e para as sociedades, que ao longo dos próximos
anos, pagarão o coronavírus em vidas humanas, mas também em liberdades
políticas e pessoais, já para não falar no preço económico cujo ónus recairá
nos mesmos de sempre.
