sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A (falta) de pluralidade da nossa Democracia


 No Domingo iremos escolher entre:

- Dois candidatos de extrema-direita, ambos com projetos mal escondidos de acabar com o atual regime constitucional;

- Um candidato de Direita ultramontana e provinciana, cujo partido que o apoia está no Governo e 'flirta' descaradamente com essa mesma extrema-direita, ao ponto de já se confundir ideologicamente com ela;

- Um candidato de Direita conservadora 'à antiga', que nem sequer tem consciência política que o é, não obstante ser apoiado (e usado) por alguns elementos desse mesmo partido do Governo, nos seus ajustes de contas pessoais e partidários;

- Um candidato de centro-direita, que fica incomodado quando lhe perguntam se é ideologicamente de Esquerda, sendo nos restantes temas uma nulidade política (as tais 'abstenções violentas', de cujo conceito é autor);

- Três candidatos de Esquerda, mas que não têm a mínima hipótese de, sequer, sonhar com a segunda volta, quanto mais em ser eleitos;

E assim vai a pluralidade da nossa Democracia: apesar do número de candidatos ser grande, os mesmos falam cada vez mais em uníssono e de modo monocromático, não havendo ideias nem propostas alternativas à cartilha e à agenda política imposta pelas pseudo-elites.

Uma Democracia sem alternativa, sem debate contraditório e sem ideias diferentes, está condenada a deixar de o ser, por mais candidatos e eleições que tenhamos.

As pseudo-elites são responsáveis, porque o fazem de modo deliberado para manter o seu domínio e os seus privilégios, é só ver as linhas editoriais dos jornais e das televisões; mas a Esquerda também é responsável pela sua própria degeneração e por se ter esquecido da sua essência e da sua razão de ser e de existir.

E é por causa disso que deixou de ser capaz de influenciar o debate e a agenda política, o que, em última análise, coloca a Democracia em causa, sem precisar vir nenhum pseudo salvador da pátria que nos diga que quer acabar com essa mesma Democracia.

Imaginem agora a gravidade disto, quando esse pseudo salvador da pátria já existe e anda por aí, com possibilidades reais de ser Presidente da República...

Prefiro nem pensar nas conseqüências...

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Desastre Eleitoral - Pequenas reflexões

 

Estão a ver aquela pessoa que mora na periferia de Lisboa, que anda de transportes públicos ou de automóvel e demora duas horas para chegar ao emprego? E outras duas horas para voltar?

E que quando chega ao emprego é usada e abusada pelo patrão ou pela chefia, sem ter como se defender? Pois a lei laboral é favorável ao patrão e a estrutura sindical é inexistente na maioria dos casos?

E que paga uma renda de casa altíssima se tiver algum crédito à habitação?

Ou passa a vida a mudar de casa, cada vez para mais longe da cidade, porque lhe aumentam brutalmente a renda?

E que quando está doente, nem sequer tem médico de família e passa doze horas no banco de urgência do hospital e ainda arrisca pagar Taxa Moderadora por utilizar a urgência?

E que ainda arrisca ser assaltada quando anda na rua porque, perdoem-me, a insegurança existe!

E que trabalhará até aos 70 anos para receber uma reforma de miséria?

Enquanto os partidos da Esquerda vivem no seu mundo e levantam questões (e se mobilizam pelas mesmas) que não dizem absolutamente nada ao cidadão de perfil que referi, são estas pessoas que estão a votar no Chega, que se tornam vulneráveis ao seu discurso e que o irão levar ao poder, mais depressa do que todos pensamos.

Ou a Esquerda volta a assumir a sua matriz ideológica de luta de classes, de combate à pobreza, à exclusão social e à desigualdade, e de maior eqüidade na distribuição da riqueza gerada, ou está condenada a desaparecer no cemitério da História, deixando aos partidos de extrema-direita o protagonismo da oposição (numa primeira fase) e da governação (brevemente) com conseqüências de retrocesso histórico das economias, das sociedades, das pessoas e do mundo.

É verdade que existe na Europa e no Mundo uma espécie de devir histórico avassalador para os partidos de Esquerda, muito por culpa dos próprios por recorrerem a estratégias erróneas e erradas com resultados desastrosos, mas também por culpa de todo um sistema - da Universidade à Comunicação Social - que formata as cabeças das pessoas no sentido da Direita.

Montenegro não está a rir: é verdade que venceu as eleições, mas não cumpriu o objetivo de constituir uma maioria de governação estável, mais não fosse, com a IL, fazendo com que a AD tivesse tido uma vitória agridoce.

Quanto ao PS, na longa ressaca pela saída de António Costa, sofreu uma das maiores derrotas da sua história, ainda por cima, estando na oposição! Tem demasiadas coisas para rever, a começar pela sua ambivalência entre uma matriz ideológica que se diz de Esquerda e a sua promiscuidade com o poder económico, digna de qualquer partido de Direita liberal.

O Chega é o único partido que se pode realmente rir dos resultados eleitorais: aumenta a votação, aumenta o número de deputados e cria uma base eleitoral que lhe possibilita assaltar o poder dentro de muito em breve.

A IL teve um bom resultado, mas não cumpre o objetivo de formar uma maioria de Direita liberal com o PSD; não obstante, sente-se confortável com a sua posição de oposição de Direita a Montenegro.

À Esquerda, Rui Tavares é o único que tem feito o "trabalho de casa", mostrando algumas preocupações com o cidadão comum e com a questão laboral - por conseguinte, é o LIVRE o único partido de Esquerda que sobe.

O PCP continua a sua lenta agonia e definhamento, com a eleição seguinte a ter um resultado ligeiramente inferior ao da eleição anterior: tinha 4 deputados, passa a 3. Enquanto a geração do 25 de Abril desaparece pela lei da vida, o PCP foi incapaz de se renovar e de seduzir novos eleitores - os que ainda tem são fiéis, mas estão a morrer, daí que até no definhamento o PCP é consistente.

O BE sofreu uma catástrofe! Ao ter o seu pior resultado de sempre e ao eleger uma única deputada, corre o risco de desaparecer no cemitério da História.

Quando a possibilidade de desaparecer do Parlamento era real, eis que o PAN consegue agüentar-se; por conseguinte, a noite eleitoral acabou por lhe ser simpática.


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Acerca da atual Direita


Rio só ainda é líder do PSD por exclusão de partes; por os montenegros e os rangéis deste mundo saberem que seria um suicídio político liderar um partido que perderá todas as eleições até 2023, com possibilidade de ir além disso, dependendo do crescimento do Chega e da IL, nomeadamente nas áreas urbanas (no sistema de caciquismos das zonas rurais o PSD ainda tem – e terá – capacidade para dominar nos próximos anos).


Para o bem e para o mal, talvez o devir histórico esteja a começar a ser implacável com o PSD, da mesma forma como, há muito, é com o CDS; o problema é que, olhando para as alternativas à Direita, isso não é necessariamente uma boa notícia.

Privatizar o pouco que resta do setor empresarial do Estado, desregular ainda mais as relações laborais, facilitando os despedimentos e baixando salários, desmantelar a Segurança Social, a Educação e a Saúde públicas, ou aumentar os impostos sobre os rendimentos mais baixos, para os baixar aos rendimentos mais altos, são denominadores comuns a todos os partidos da Direita.

A este extremismo neoliberal, partidos como o Chega querem acrescentar uma agenda de retrocesso social e até político, como são as ideias de voltar a penalizar o aborto, de suprimir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, da introdução de castigos corporais para determinados crimes, da adoção do presidencialismo ou da perseguição de grupos étnicos específicos.

Por tudo isto, seria desastroso para o país e para as pessoas se a atual Direita portuguesa regressasse ao poder, pois está mais radical, mais extremista, menos tolerante e menos democrática.

Cabe aos partidos de Esquerda evitar que isso aconteça, adotando políticas que os distingam verdadeiramente do extremismo neoliberal e sociopata de PSD, IL e Chega.

Podemos começar pela revisão das leis laborais, herdadas dos tempos de Passos Coelho, Paulo Portas e Vítor Gaspar.

Mas também se exige uma retoma do investimento na Saúde pública, na Educação (a começar pelos recursos humanos, sujeitos a leis laborais que fomentam a sua precariedade) e no reforço da Segurança Social para que a mesma se torne verdadeiramente inclusiva e ninguém fique para trás.

Lembrem-se: os que ficam para trás, são os mesmos que mais facilmente caem no canto da sereia fascista.

Estará a Esquerda à altura deste desafio?

Veremos já no próximo Orçamento de Estado.

sábado, 3 de julho de 2021

IMPUNIDADE, DESRESPONSABILIZAÇÃO E DESCARAMENTO – Resumo de uma semana ilustrativa do país que temos

 


Um milionário que não tem nada de seu, pede mil milhões emprestados à banca, num esquema ainda por clarificar, nomeadamente em como os bancos lhe deram tamanho crédito com tão frágeis garantias.

É interrogado na Assembleia da República e goza com a cara dos deputados; posteriormente é detido e libertado sob uma fiança de cinco milhões de euros que alguém pagará, já que o senhor em questão diz viver na mais miserável pobreza franciscana.

Um Ministro da Administração Interna viaja a duzentos quilómetros por hora no auto-estrada, quebrando todos os limites de velocidade quando tinha a obrigação moral e política de ser o primeiro a dar o exemplo, pois o seu Ministério tutela todas as polícias de trânsito deste país, essas mesmas que multam impiedosamente o cidadão comum se o mesmo ultrapassar os cento e vinte quilómetros por hora.

A pressa do Ministro provoca um acidente com um óbito, mas o responsável político recusa demitir-se, ainda se vitimizando pelo sucedido.

Ao mesmo tempo que nos enchem de regras, restrições e dois dolorosos confinamentos, as autoridades de saúde (Ministério da Saúde, Direção-Geral de Saúde e Ministério da Administração Interna) permitiram a entrada de turistas e adeptos ingleses, que fizeram impunemente tudo o que é proibido aos portugueses: desde andar na rua sem máscara, aos ajuntamentos de dezenas/centenas de pessoas na via pública ao beber álcool nessa mesma via pública – e andarem alcoolizados, ao ponto de fazerem vários desacatos.

Ao mesmo tempo que as conseqüências desta negligência das autoridades já se fazem sentir no disparar do número de casos de covid, a diretora da DGS diz que a vinda dos adeptos ingleses “correu bem”, enquanto os ministérios da Saúde e da Administração Interna assobiam para o lado quando se trata de ingleses, mas multando impiedosamente quem fura as cercas sanitárias, as restrições e os confinamentos, dando a sensação que o império da lei é só para uns, mas não para todos.

Enquanto a elite económica rouba a seu bel prazer, goza com a situação e não lhe acontece nada (e não é só o Berardo, há mais!), a elite política comete erros, usa dualidade de critérios na aplicação das leis e também não assume as responsabilidades que seriam inerentes ao exercício de um cargo político.

Não só o Berardo não é preso, como os ministros da Administração Interna e da Saúde, assim como a responsável pela DGS não se demitem.

Resumindo, em Portugal ninguém assume responsabilidades, quer seja pelo estado económico em que o país foi colocado, que culminou com a entrada da Troika (2011), quer seja pelo estado sanitário em que nos encontramos atualmente, conseqüência direta da má gestão da pandemia e da negligência das autoridades de saúde.

Para cúmulo, transmitem à população uma sensação de dois pesos e de duas medidas: elites que roubam e andam em excesso de velocidade e nada acontece, políticos que só fazem disparates e ninguém assume nada, ao mesmo tempo que o comum dos cidadãos vai preso se rouba, paga as suas multas se é apanhado em excesso de velocidade ou a violar as regras sanitárias e é demitido do seu emprego se cometer o mais pequeno erro.

Quanto às elites se safarem de tudo o que roubam, estamos conversados há muito.

Quanto aos ministros e responsáveis sanitários que se deveriam demitir, a teimosia em ficarem acabará por colocar em causa a própria sobrevivência do Governo, nomeadamente se for necessário recorrer a um novo confinamento para travar o aumento de contágios por covid.

E atendendo ao perigo das possíveis alternativas a esse mesmo Governo, portadoras do defeito do elitismo económico e do fascismo político, não se auguram bons tempos para os lados desta ocidental bandalheira lusitana.

Ninguém vai preso, ninguém se demite, ninguém assume nada e não acontece nada. A impunidade é total!

Para concluir, um país que aplica regras e leis para uns, mas assobia para o lado quando são outros, não pode ser considerado uma Democracia; é antes uma Oligarquia podre e parola, vulnerável ao primeiro vendedor da banha da cobra com que se depare.

E depois, admiram-se como ele foi lá parar – a seu tempo e para mal dos nossos pecados.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

A cavar no sítio errado



Parece ser intenção deliberada do Governo colocar nas famílias o ónus do previsível descontrolo da situação, quer nas urgências e UCI's hospitalares, quer nas incomportáveis conseqüências económicas de um cada vez mais inevitável novo confinamento.

Enquanto se morre de Covid, muitos imbecis insistem em não cumprir regras, seja em casamentos sem regras, a ir ver as ondas para a Nazaré, em corridas de Fórmula 1, ou em encontros de "tunning"; já para não falar nos ambientes laborais sem condições mínimas, nos transportes públicos ou nas escolas.

É falso e muito injusto que a "culpa" pelo aparente descontrolo da propagação do vírus seja das famílias e dos convívios familiares.

Parece que o Governo trata de reprimir o que não dá problemas e mantém aquilo que, de facto, é a causa da maioria dos contágios!

Assim, não vamos lá!

Tal como diz o gráfico da DGS, se a causa principal dos contágios for o natural contacto entre os membros do mesmo agregado, tornam-se totalmente inúteis as medidas anunciadas de Recolher Obrigatório.

Por que raio nos mandam ir para casa, se é lá que mais apanhamos Covid, de acordo com a própria DGS??

A não ser que o bicho entre sozinho em casa das pessoas...

Quanto muito, significa que pelo menos um dos membros do agregado foi contagiado fora do ambiente caseiro.

E se assim é, torna-se falso - para não dizer mentiroso - dizer que a causa da maioria dos contágios sejam as famílias; antes é o ambiente laboral e social onde cada indivíduo está inserido a causa primeira das novas infeções.

As inúmeras excepções previstas no Recolher Obrigatório tornam o mesmo totalmente inútil no combate à propagação da doença.

Continuamos a sair para compras, a trabalhar, a ir à escola, ao shopping, a utilizar transportes públicos e alguns de nós, até se dão ao luxo - e à irresponsabilidade - de socializar, pois a mensagem que o Governo passa é que o vírus é seletivo, que tem horas e locais marcados para atacar.

Aqui pode, ali não pode; acoli é perigoso, mas se for a certas horas, já é seguro...

Ao tentar ganhar tempo e ao agir nos locais e situações erradas, o Governo e a DGS só vão conseguir que o vírus se continue a propagar descontroladamente, com conseqüências cada vez mais dramáticas para a saúde e para a economia.

Alguns dos nossos parceiros europeus parecem já ter percebido que só um segundo confinamento, feito a sério e não a brincar, nos salvará de um incêndio de proporções bíblicas.

O problema é que esse segundo confinamento significará um incalculável preço económico e social, não tendo o Governo português coragem para o decidir.

Pior que tudo: acabará por ser forçado a decidi-lo quando os médicos começarem a escolher quem vive e quem morre, quando os jornais estiverem inundados de famílias enlutadas e indignadas por o SNS ter deixado morrer o seu ente querido (e muitos aproveitarão para colocar em causa a existência do próprio SNS por isto).

Mas aí, já será tarde para muitos; até para a própria economia.

Se é preciso fazer, que se faça, por muito doloroso que se torne.

É que ainda mais doloroso, tanto para a economia, como para a saúde, como ainda para a própria existência de todos, é o continuar deste arrastar da situação, que levará o país para um abismo no qual ficará por décadas.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O Dia do Austericídio Final




E hoje ficámos a saber que a Holanda se recusa a emitir “eurobonds” e exige que os países que recorram ao fundo de resgate europeu dêem garantias de austeridade fiscal.

Sim, no meio da doença e da morte eles insistem na austeridade!

Tanto em 2011 como agora, ao chegar a hora da verdade, a apregoada “solidariedade europeia” resume-se ao velhinho conceito de “cada um por si”, contrário a tudo o que a União Europeia diz ser.

A mensagem europeia é simples: “primeiro amarramos-te (pertença ao euro, limites de défice e de dívida pública) e agora, depois de amarrado, desenrasca-te sozinho com o coronavírus” – isto é, não só, não ajudam, como ainda se tornam em obstáculo à ação dos estados, como se verá.

Já sabemos que a União Europeia se está a borrifar para os mortos nos países do sul, tal como outrora se esteve a borrifar para os desempregados desses mesmos países, aquando da chamada “crise da dívida” – e não mudaram nada.

Solidariedade em troca de austeridade deixa de o ser; antes é o regresso da troika de má memória, de cujas políticas ainda não nos livrámos, mas nas quais a União Europeia ateima, mesmo depois das terríveis conseqüências que obteve no passado e das circunstâncias únicas dos dias de hoje.

Para a União Europeia não importam as pessoas, principalmente as que tiverem a pele mais morena; o que realmente conta é o défice orçamental e a dívida pública dos membros da zona euro, utilizando instrumentos de chantagem e de terrorismo económico para fazer cumprir esse objetivo, tal como na Grécia de 2015.

Tudo o resto que se lixe, que se dane, que fique no desemprego, que adoeça ou que morra; desde que as contas públicas estejam na ordem o sofrimento humano é-lhes indiferente.

No fundo, os atuais líderes europeus continuar a subscrever de forma não assumida, por saberem que lhes fica mal, insinuações de um passado recente, no sentido de se chamarem de “porcos” aos países do sul (PIIGS – Portugal, Italy, Ireland, Greece and Spain), ou de insinuar que os mesmos “gastam tudo em vinho e em mulheres”.

Países do sul a quem quiseram abrir um processo por défice excessivo (2016); mas estando a França nas mesmas condições, nada foi feito “parce que c’est la France”, nas palavras do então Presidente da Comissão Europeia, numa flagrante dualidade de critérios que feriu de morte a réstia de pretensa igualdade entre os estados, se porventura ainda existisse.

Depois de todas estas atitudes tidas ao longo dos anos, ainda existem dúvidas relativamente ao racismo, não assumido mas mal escondido, dos países do norte em relação aos povos mediterrânicos?

Não esquecer que a construção europeia se baseou em dois pilares: a livre circulação de pessoas e bens, e a união económica e monetária.

Depois do coronavírus ficámos conversados em relação à livre circulação de pessoas, morta e enterrada. Quanto à união económica e monetária, a mesma está adaptada à realidade económica alemã (exportadora), só tendo beneficiado as multinacionais dos países do norte da Europa à custa da asfixia do crescimento económico no continente, nomeadamente nas economias do sul.


Devido à paragem da maioria das atividades, é inevitável a vinda de uma crise económica muito mais severa que a de 2008.

Para sua resolução, ou se emite moeda, provocando inflação, ou se mutualiza a dívida, a fim da União Europeia enfrentar essa mesma crise económica como um só bloco, como uma só entidade.

Devido à existência do Euro é impossível a cada país, por si só, emitir moeda, ficando a restar o endividamento como o único instrumento disponível para fazer face à crise.

Se a União Europeia se recusar a enfrentar esta situação como um todo, se insistir na receita da austeridade e se não der sinais de uma verdadeira união económica e política, demonstrará a sua inutilidade histórica e perderá a sua razão de existir; é que além de não ajudar, ainda se consegue tornar numa dificuldade acrescida para que cada país resolva, por si, a situação grave em que se encontra.

Os partidos fascistas de Salvini, de Le Pen, de Abascal ou de Ventura agradecem o extremismo neoliberal que grassa na Europa, pois fará com que o poder lhes caia nas mãos, mais cedo que tarde, o que será pior a emenda que o soneto.

Ou a lógica neoliberal é erradicada de vez ou a Europa reviverá o pesadelo e os dilemas dos anos que precederam a II Guerra Mundial: ou sofrerá com um Reich alemão que durará mil anos, ou terá pequenos tiranos fascistas instalados em cada um dos estados europeus, conseqüência de cada país ter tentado debelar a crise pelos seus próprios meios, com um custo muito mais dramático para as suas populações.

A alternativa será forçosamente a Europa dos povos, humana, solidária, que centre nas pessoas – e não nos mercados – a sua razão de existir.

Ou essa Europa surge, ou o coronavírus pregará o último prego do caixão, tanto do da União Europeia, como do da liberdade e da democracia no continente, valores dos quais essa própria UE acaba por não comungar, devido à sua loucura pela austeridade orçamental, que num passado recente minou as fundações de uns regimes democráticos que não sobreviverão a outra onda de cortes igual à de 2010-13.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Euro-suicídio: o mito da solidariedade europeia




Depois da chamada “crise da dívida”, em que os países do sul da Europa foram chamados a resgatar os bancos franceses e alemães, ficou evidente que a solidariedade europeia não passa de um mito; só existe na hora dos PIIGS (Portugal, Italy, Ireland, Greece and Spain) pagarem o preço de pertencer ao clube, sem colher o respectivo benefício.

Ao invés, os países do norte, tal como a Alemanha, a Áustria ou a Holanda, colhem o benefício sem nunca ter que pagar o preço.

Por exemplo, aquando da crise dos refugiados em 2015, Merkel quis partilhar essa responsabilidade com o resto da Europa; mas aquando da crise das dívidas soberanas, Merkel insistiu que seria cada um por si e prepara-se para fazer o mesmo na ressaca económica do coronavírus, recusando a emissão de títulos de dívida comum.

A Europa age unitariamente quando convém, mas fomenta a ação individual e o salve-se quem puder, quando também convém.

É sabido que o objectivo supremo da União Europeia não são as pessoas nem o bem-estar comum, antes é a luta contra os défices e as dívidas públicas dos países do sul, porque em relação aos do norte assobia para o lado, “parce que c’est la France”, como disse Jean-Claude Juncker.

É sabido que a União Europeia dá com uma mão para posteriormente tirar com as duas; a recente suspensão da obrigação do cumprimento do Pacto de Estabilidade (défice a 3% do PIB) será posteriormente paga com a austeridade de sempre, sobre os mesmos de sempre, a fim de poupar os beneficiários do costume – e fazê-los ganhar ainda mais dinheiro com isso, como vimos no passado recente.

Dizem-nos que os problemas globais exigem uma resposta global, sob pena de cada Estado, agindo por si só, ser ineficaz por falta de capacidade, na luta contra as ameaças e desafios de um mundo demasiado interligado.

Devido ao coronavírus e ao restabelecimento dos controlos fronteiriços por parte da maioria dos estados, o chamado espaço Schengen de livre circulação de pessoas e bens tornou-se moribundo e o prolongamento no tempo desses controlos aduaneiros poderá feri-lo de morte – se é que já não feriu.

Caso a arrogante União Europeia insistir em não querer ser a solução para os gravíssimos problemas económicos originados pela crise do coronavírus, ficará esvaziada da sua razão de existir, pois tornar-se-á evidente que, do ponto de vista dos estados do sul, não servirá para nada, a não ser para pagar um preço económico alto, em forma de eterna austeridade fiscal, sem que com isso se colha o devido benefício.

Pelo contrário, as declarações do ministro holandês das finanças provam que essa mesma união económica e monetária se tornará em mais um problema e obstáculo à recuperação das economias após a epidemia, com a previsível reposição do Pacto de Estabilidade e da sacrossanta regra do défice a 3% do PIB, o que implicará a imposição de políticas de austeridade fiscal que impedirão as economias de recuperar desta hecatombe.

Em tempos de pandemia e do drama humano que isso implica, a insistência em soluções de austeridade, que no passado recente levaram ao sofrimento de tantas pessoas, torna-se num exercício de desumanidade primária.

Depois de ainda não ter recuperado a sua credibilidade após a chamada crise da dívida, a União Europeia arrisca não sobreviver se os países do norte da Europa insistirem em não agir de uma forma solidária e unitária. Teriam essa obrigação, pois são eles que mais beneficiam da chamada união económica e monetária.

Com este suicídio coletivo que não vem de agora, a União Europeia será a única responsável pela ascensão de tudo aquilo que diz querer evitar: Salvini, Le Pen, Abascal, Geert Wilders ou Ventura, aproveitarão esta oportunidade para mergulhar o continente numa idade de trevas fascista.

domingo, 15 de março de 2020

Coronavírus - Medidas Urgentes e Necessárias



Acaso estarão à espera que tenhamos 5000 infecções para tomar medidas a sério contra o vírus?

Será que os interesses de meia-dúzia de operadores turísticos e de outros tantos capatazes ultramontanos se sobrepõem à saúde de todos nós?

Não será preferível que as medidas a tomar se antecipem à propagação da doença, ao invés de ser a doença a se antecipar às medidas do Governo, tal como tem acontecido até agora?

Para quando o Estado de Emergência?

- Recolher obrigatório, só sendo possível sair de casa para trabalhar ou para comprar medicamentos e/ou alimentação;

- Fecho de fronteiras, pois muitos dos que andam por aí a brincar com a saúde alheia são turistas, alguns deles vindos de países onde o vírus já se espalhou de forma generalizada;

- Tropa na rua, pois as pessoas insistem em não mudar o seu comportamento, continuando a viver como se nada estivesse a acontecer, só restando o uso do “hard power” para acabar com o irresponsável “lá-lá-land”;

- Que continuem intocáveis as liberdades de expressão e de opinião, a separação de poderes (executivo, legislativo e judicial) e o respeito pela Constituição e pelo Estado de Direito;

Porquê a tomada de medidas tão drásticas?

Porque mais cedo ou mais tarde, devido à propagação do vírus, essas medidas vão acabar por acontecer – aconteceram na China, em Itália e agora, em Espanha.

Então, é preferível que paremos já o país, enquanto o contágio ainda não assumiu contornos dramáticos, do que quando o mesmo for generalizado, com prejuízos ainda maiores para a saúde pública e para a economia, assunto tão caro a alguns.

Até para os interesses dos capatazes parolos é preferível o país parar já, por duas ou três semanas, que acabar por ter que parar na mesma, mas por mais tempo, arrastando a incerteza e o tempo dessa paragem; e com isso, afundar ainda mais a sacrossanta economia.

O segredo consiste em tomar medidas que estejam um passo à frente da propagação do vírus e não ir a reboque dos acontecimentos, sob pena da situação começar a assumir contornos cada vez mais difíceis de paliar, como temos assistido em Espanha e em Itália.

Quanto maior for o tempo de inacção, pior será para todos nós, em todos os campos.

Por conseguinte, exigem-se medidas drásticas e para ontem, pois o tempo está-se a esgotar!

Para bem de todos. Pela nossa saúde. Pela nossa vida.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Coronavírus




A disseminação do coronavírus não só nos fará lamentar os mortos pela doença, como também trará conseqüências terríveis para a civilização ocidental numa ampla e preocupante variedade de aspectos.

Para começar, a desconfiança e o medo em relação a tudo o que é estrangeiro e diferente, potenciando o racismo e a xenofobia, o que será um forte trunfo dos partidos fascistas que sempre propuseram o fecho das fronteiras e o controlo férreo sobre as atividades e as deslocações da população.

Quando os governos se preparam para fazer isso mesmo, não faltarão os que disseram “eu avisei”; resta lembrar os distraídos que eles “avisaram”, não porque previssem um qualquer coronavírus a fim de proteger a população, mas antes devido ao seu ódio a tudo quanto é pele morena e pobre.

A epidemia servirá de justificação para a restrição e inclusive, a supressão de liberdades que nós tínhamos como um dado adquirido, tais como a liberdade de deslocação, do exercício de uma profissão, da expressão de uma opinião e até, do direito a ter uma vida pessoal; é que tudo se tornará susceptível de ser sujeito a escrutínio e motivo de desconfiança uns dos outros, desde um espirro ao esconder de outra coisa qualquer, numa insuportável e mentalmente doente sociedade policial – as epidemias e o pânico que provocam na população têm o poder de ser justificação para quase todos os abusos.

Mas não ficaremos por aqui, porque no final – e a maioria de nós sobreviverá – alguém terá que pagar a conta das enormes conseqüências económicas da epidemia.

E todos sabemos que não serão os banqueiros ou os grandes empresários a pagar. Que “não foram eles os culpados pelo vírus”? A restante população também não, tal como não foi responsável pela crise financeira de 2008 mas pagou-a, como também não foi culpada pela gestão danosa dos bancos e ainda hoje os resgata.

O coronavírus servirá de pretexto para aumentar ainda mais a austeridade sobre as camadas mais pobres da população, em forma de aumento de impostos sobre o trabalho (jamais sobre o capital), no desmantelamento do que resta dos serviços públicos e numa ainda maior desregulação das leis laborais e conseqüente baixa de salários, contribuindo a epidemia, desta forma, para uma ainda maior desigualdade na distribuição da riqueza, como se não bastasse a que já existe.

Por vezes, a política é feita de sorte e de azar; o coronavírus parece ter sido feito à medida dos programas dos partidos da Direita fascista e ultraliberal, o que não augura nada de bom para a política, para a economia e para as sociedades, que ao longo dos próximos anos, pagarão o coronavírus em vidas humanas, mas também em liberdades políticas e pessoais, já para não falar no preço económico cujo ónus recairá nos mesmos de sempre.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Cleptocracia




Uma vez, alguém disse que existem várias formas do Estado se organizar. Pode ser uma Democracia, uma Ditadura; pode ser Socialista, Capitalista, etc... mas esqueceu-se da palavra que define a organização e a estrutura de certos estados: cleptocracia.

Quando o Estado angolano quase vai à falência e precisa de ajuda do FMI (2016) fica muito difícil dizer que é a saúde, a educação e as pensões de reforma que levam o dinheiro todo, sob pena de um descaramento primário.

Então, preferiram dizer que a "culpa" foi da baixa do preço do petróleo (a partir de 2014) e posteriormente, da corrupção.

Ninguém abandona o poder de livre vontade. Ponto.

Principalmente se for um autocrata, eleito de forma muito duvidosa e com uma clientela oligárquica cuja sobrevivência depende da continuidade de certo indivíduo na presidência.

Mas devido à gravidade da crise económica e financeira de 2016, Zedu deixou de ter condições políticas para se manter no poder, sendo este o verdadeiro e único motivo para a sua saída, pois a teoria do "estou velho, cansado e doente" não passa de um mito.

É que com a sua saída do poder, essa elite clientelar e cleptocrática que dele dependia, também se viu forçada a abandonar as estruturas desse mesmo poder; sendo substituída por uma outra elite com as mesmas características, sedenta de revanchismo e como é evidente, também ansiosa de pôr as mãos nos já depauperados recursos ao Estado angolano.


Em 2017 assistimos à mudança na presidência e à mudança dos protagonistas, mas sem que o regime de cleptocracia terminasse.

Não obstante, o sentimento de vingança e a necessidade de encontrar "culpados" pela crise económica de 2016, a fim de perpetuar o MPLA no poder, levou a atual elite angolana a dar caça a tudo o que "cheire" a Zedu.

Como é evidente, só com uma ingenuidade de bradar aos céus é possível acreditar que quem começa a vida vendendo ovos é capaz de construir um império empresarial somente com o seu mérito.

Ao darem entrevistas na televisão, só mostraram uma arrogância reveladora do quanto são culpadas pela depredação dos recursos que deveriam ser de todos os angolanos.

E ainda falta sabermos das relações perigosas entre essa mesma pessoa e as elites políticas e económicas portuguesas, algo que dificilmente verá a luz do dia, sob pena de explosão.

Na economia portuguesa, nos próximos meses, é de temer que tenhamos mais um banco para resgatar, fruto dessas mesmas relações perigosas entre os cleptocratas "d'aquém e d'além mar".

Atendendo a cobardia e à docilidade com que as autoridades portuguesas tratam dos assuntos angolanos, será um assunto pacífico: pagaremos e não bufaremos, com a comunicação social, alguma dela controlada por angolanos, a calar devidamente o assunto.

O problema é que, tanto em Portugal, como principalmente em Angola, os únicos que são realmente inocentes no meio disto tudo, são os que sofrem as conseqüências destes jogos de poder entre duas pseudo-elites que vivem do saque e não do tal mérito que tanto apregoam ter.

domingo, 5 de janeiro de 2020

O Preço da Loucura




Nunca Trump se descreveu a si próprio de modo tão sucinto: egoísmo, soberba, arrogância e falta de humildade de alguém que prefere sempre a força bruta à negociação, ao acordo escrito ou ao respeito.

Está a precisar de uma lição de humildade e de humanidade, que o faça ver que o mundo não lhe pertence e que não faz o que quer.

Não obstante a verborreia de taberna, é impossível não reparar no dinheiro que os Estados Unidos gastam em defesa: Dois triliões de dólares, dados a ganhar a uma indústria de armamento sedenta por uma nova guerra, para conseguir novas vendas, contratos e lucros, tudo à custa do sofrimento humano de civis inocentes.

Dois triliões de dólares… quantos problemas a Humanidade não resolveria com essa quantia? Das alterações climáticas à pobreza, passando pelo combate a variadíssimas doenças ainda sem cura.

Quanto sofrimento humano não termina? Quanta exploração laboral? Quanta fome? Quantas crianças sem escola? Quantas vítimas de doenças tratáveis?

Quanto a Humanidade não progride e evolui, só para que Trump, os Estados Unidos e a sua indústria de armamento possam continuar a lucrar?

Simplesmente pornográfico.

A fim de desviar as atenções dos Estados Unidos e do mundo em relação ao seu processo de destituição, Trump optou por uma política externa agressiva, quase que provocando deliberadamente uma guerra, algo de conseqüências que ele e o seu incompetente staff são totalmente incapazes de controlar e de medir.

A irracional escalada de tensão e de retaliações, por ambos os lados, poderá originar uma guerra devastadora, cujos intervenientes não serão somente os Estados Unidos e o Irão.

Fazer uma guerra tem o seu preço e Trump parece não ter a noção que uma guerra com o Irão fará os Estados Unidos e os seus políticos pagar um preço demasiado alto para ser admissível.

Não só um preço económico e político, mas também um preço militar, humano e até geopolítico; em resumo, o que os Estados Unidos supostamente beneficiarão numa previsível vitória é muito menos do que o preço que pagarão pela mesma, concluindo-se pelo bom senso (que não impera) que não compensa fazer a guerra.

E se Trump não tem a noção disto, não passa de um louco sem condições para ser Presidente dos Estados Unidos.

Se os Estados Unidos vencerem uma guerra contra o Irão, controlando o seu petróleo e o Estreito de Ormuz, por onde passa a maioria do petróleo mundial, ganharão uma vantagem geoestratégica decisiva sobre a Rússia e a China, criando um enorme desequilíbrio de forças entre as superpotências, algo que será considerado intolerável por russos e por chineses.

Desta forma, só restará à Rússia e à China irem até às últimas conseqüências, para impedir os norte-americanos de obter essa supremacia, existindo a possibilidade real de ambos agirem militarmente contra dos Estados Unidos da América, caso estes ataquem o Irão.

Demasiado grave.

É urgente que impere a racionalidade e o bom-senso, sob pena da eclosão de uma guerra entre as grandes potências, algo que não acontece desde o final da II Guerra Mundial, em 1945.

Guerra essa que todos perderão, nem é necessário referir o motivo.

sábado, 4 de janeiro de 2020

O mapa fascista




Atendendo ao historial de desejo anexionista do fascismo espanhol, é impossível considerar este mapa peninsular do Vox um mero lapso ou sequer falta de jeito para desenhar.

Herdeiro político de Franco, tenta o Vox concretizar o projeto de anexação de Portugal, equacionado pelo sátrapa em 1940 e em 1975, possuindo a mesma visão de nação imperial do fascismo clássico.

Não são raros os académicos espanhóis afectos a Franco, que consideram a perda de Portugal, em 1640, de um "error histórico", pois opinam que Olivares (Primeiro-Ministro do Rei Filipe IV) deveria ter priorizado sufocar a revolta em Portugal, do que reprimir a da Catalunha, como veio a acontecer.

E se forem bem "puxados" na conversa, continuam a defender a anexação de Portugal, propondo a colocação da capital em Lisboa, para nos "prender pelo cachaço" (Filipe II fez isso, logo a seguir a 1580), e o uso da bandeira do antigo Reino de Aragão (por ser a mais antiga).

Ventura ou Salazar são fascistas, mas em comparação com o extremismo exposto no parágrafo anterior, não passam de meros aprendizes de feiticeiro!

Como é público, existem políticos portugueses que não vêem no Vox um partido fascista; são os mesmos a quem lhes deveria ser aberta uma janela, para voarem no sentido inverso de Carrero Blanco, seguindo o exemplo de Vasconcelos.

É que mais grave que traírem Portugal, traem a liberdade, a democracia, a diversidade peninsular e a tolerância para com todos os povos, ibéricos e não só.

Se existe lição que a História nos dá, é que a mesma não tem factos consumados nem dados adquiridos, sendo o seu devir eterno e imprevisível.

O que hoje pode parecer algo sem sentido, amanhã poderá tornar-se uma inevitabilidade, cabendo-nos a nós zelar para que continue a ser um disparate.

Sabemos que a economia globalizada se tornou demasiado forte para que sejam necessárias invasões militares clássicas; mas também sabemos que essa mesma globalização também proporciona um mais fácil contágio das mentes com ideias de ódio, de intolerância, de racismo e de fascismo, com a sua inevitável componente nacionalista e imperialista, causadora de tanto sofrimento humano ao longo dos milénios.

Que com este mapa, o Governo português aprenda a lição e se saiba colocar do lado certo da História, sempre que trata a questão da Catalunha como um mero "assunto interno", traindo Aragão e Catalunha, os nossos aliados históricos na luta contra a hegemonia de Castela na península.

Que com este mapa, muitos que se dizem nacionalistas, mas ao mesmo tempo apregoam a “unidad de España” na questão catalã, percebam a ridícula contradição em que caem.

A libertação dos povos peninsulares não está na anexação de Portugal por Espanha, pelo contrário, isso seria o perpetuar do franquismo, do fascismo e da opressão.

A libertação de portugueses, galegos, asturianos, bascos, catalães, aragoneses, leoneses, castelhanos e andaluzes, encontra-se numa Ibéria de povos, federal, republicana e solidária, sem o Bourbon e sem partidos fascistas.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Que 2020 teremos?




Num mundo cada vez mais dinâmico e caprichoso, em que tudo muda com a facilidade de um “click”, fazer previsões sobre o dia seguinte torna-se num ato de coragem, pelo elevado risco de falibilidade.

Nunca sabemos se a qualquer momento, ao ligar a internet ou ao colocar o televisor num canal de notícias, aparece o já célebre chavão de “última hora” ou “breaking news”, sempre susceptível de fazer desabar um mundo e de erguer outro.

Todas as previsões, palpites, adivinhações ou lá o que lhes quiserem chamar, por muito racionais que pretendam ser, serão sempre baseadas nos dados disponíveis no momento em que são feitas, algo que poderá mudar totalmente no segundo seguinte.

Após o resultado das últimas eleições britânicas, o “brexit” tornou-se irreversível, apesar de continuarmos sem saber em que moldes se consumará; o elemento novo é a confirmação nas urnas da vontade de sair dos britânicos e a legitimação, nessas mesmas urnas, da possibilidade de uma saída à bruta que não beneficiará ninguém, a começar por quem votou nos Tories de Johnson.

Serão os moldes como esse “brexit” se consumará a determinar se em 2020 assistiremos ao início da desagregação do Reino Unido, com Edimburgo a trocar a suserania de Londres pela de Berlim e com um possível recrudescer do conflito na Irlanda do Norte, em que a maioria protestante terá muito poucos argumentos para continuar presa a uma Inglaterra que lhe imporá cada vez maiores entraves comerciais.

Quanto à União Europeia e ao Euro, continuarão ambos dependentes do impasse em que se tornou a política interna alemã, com uma Chanceler politicamente fraca e a prazo, mas que ninguém deseja ver sair, sob pena de uma ingovernabilidade interna, de cujo caos poderão sair vitoriosos partidos nazis de má memória para a Alemanha e para o mundo.

Aproveita Macron a momentânea fraqueza alemã para impor a França como potência dominante na Europa, algo que será passageiro e que só durará até ao surgimento de uma nova liderança política forte do outro lado do Reno, qualquer que ela seja, o que pulverizará a França do lugar cimeiro na Europa, subalternizando-a de novo aos interesses prussianos.

Quanto aos Estados Unidos de Trump, o mesmo sobreviverá ao processo de destituição num exercício de vitimização que o poderá catapultar para a reeleição em Novembro.

Tenderá depois disso a uma política externa ainda mais agressiva, a fim de unir o país em torno de si, o que poderá levar os Estados Unidos a uma nova guerra, desta vez, na Venezuela, alvo militarmente mais fácil e em conformidade com a doutrina Monroe, e de conseqüências internacionais menores que um ataque ao Irão, pois antes de agredir militarmente a Venezuela, os Estados Unidos já cumpriram o objetivo de colocar nos restantes países sul-americanos governos fiéis e dóceis, isolando política e militarmente o regime de Maduro.

À excepção da América Latina, a perda de influência dos Estados Unidos no mundo acentuar-se-á e a sua decadência coincidirá com uma ascensão da China, que não mais permitirá intervenções norte-americanas na Coreia ou até em Taiwan, questão também por resolver e cuja possibilidade de se tornar num “casus belli” entre ambas as potências é ainda maior que o regime de Kil-Jong-Un.

A crescente fraqueza americana também será aproveitada pela Rússia de Putin, que consolidará a sua posição no Médio Oriente através do governo fantoche sírio de Al-Assad, por si patrocinado e através do Irão, necessitado de um aliado forte para se contrapor a Israel e a Arábia Saudita.

Também na Europa Putin beneficiará da detonação da NATO feita por Trump (erro que, na prática, tira os Estados Unidos da Europa e da sua defesa) e da momentânea fraqueza alemã (impasse na constituição do exército europeu) para se consolidar em alguns países do antigo bloco de leste, recuperando algum (mas não todo) do poder da antiga URSS.

Quanto ao Médio Oriente, assistiremos a uma cristalização da luta entre um Irão chiita apoiado pela Rússia e uma Arábia Saudita sunita apoiada pelos Estados Unidos, com o intocável Israel a interferir na política interna norte-americana em seu proveito, a fim de consolidar a sua ilegal e odiosa anexação de territórios palestinos, ao mesmo tempo que continua a ser a única potência nuclear da zona.

O vazio de poder deixado após as desastrosas intervenções militares ocidentais no Afeganistão, no Iraque, na Síria e na Líbia continuará a originar o surgimento de proto-estados terroristas (Estado Islâmico), cujo fanatismo continuará a ameaçar o dito ocidente com atentados terroristas, sendo que a Líbia tornar-se-á num novo viveiro de fanáticos, às portas da Europa. Muito preocupante.

Quanto à Economia, as (por alguns) desejadas nuvens negras começam a perfilar-se no horizonte, a fim de servirem de justificação a novas medidas de austeridade em cima da classe média, cuja conseqüência será a caída desta nos braços dos partidos fascistas e nazis que vão surgindo, correndo o risco de mergulhar o mundo numa noite negra e longa de fascismo.

Já sabem: os liberais tomam as medidas de austeridade a fim de auxiliar a banca e de lhe paliar os abusos, mas a “culpa” será sempre dos imigrantes, dos ciganos, dos gays e dos refugiados. Burro de quem acredita neste discurso. Sem mais delongas neste assunto.

Finalmente, quanto a Portugal… sabemos não estar a oposição em condições de disputar eleições tão depressa, o que fará com que o nível de tolerância da mesma em relação aos orçamentos de Estado do Centeno seja enorme.

Mas também sabemos da tentação do PS em tentar uma maioria absoluta ao primeiro tropeção da oposição em matéria de viabilização do orçamento; nesta situação, Costa não só tentará a maioria, como terá o argumento perfeito para se desembaraçar de Centeno…

Um jogo do “gato e do rato” que não augura nada de bom, nomeadamente com o surgimento meteórico de um partido fascista, que se lhe continuarem a inflacionar a influência que atualmente tem, a breve prazo, adquirirá capacidade para ditar as suas regras no jogo político lusitano.

Muito preocupante. Que fique o aviso.

Uma última palavra para as alterações climáticas: os países ricos e as classes abastadas continuarão a poluir e a lucrar com isso, enquanto os países pobres e as classes desfavorecidas continuarão a levar com as piores conseqüências.

Mesmo em caso de cataclismo climático essa situação não se alterará, pois confesso que a minha fé no ser humano já foi maior.

Um Feliz Ano Novo para todos, se puderem.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A vitória do "brexit" a todo o custo



Goste-se ou não, Boris Johnson e o seu “brexit” a todo o preço, foram os vencedores incontestáveis das eleições britânicas, ficando os deputados “tories”, agora eleitos e vitoriosos, sem condições políticas para continuar a arrastar a questão da saída da União Europeia para as calendas, como têm feito até agora.


É que ao contrário das últimas eleições – Junho de 2017 – em que o eleitorado pareceu recuar na opção pelo “brexit”, a escolha de ontem é inequívoca pela saída do Reino Unido da União Europeia, tanto em Inglaterra como no País de Gales.

O Partido Conservador, sob a liderança de Boris Johnson e sob o signo do “brexit”, recupera a maioria absoluta perdida em 2017, assumindo a responsabilidade de levar a bom termo essa mesma saída da União Europeia, que parece ter-se tornado irreversível com a votação de ontem, ficando somente por saber como e quando a mesma acontecerá.

Não obstante, após falharem estrondosamente na tentativa de reversão do referendo que ditou o “brexit”, o preço que Berlim e Bruxelas se preparam para cobrar pela ousadia da saída será o mais alto possível, a fim de desencorajar futuros “exits”, mesmo que isso provoque uma recessão económica na Europa, o que faz adivinhar um arrastamento das negociações até níveis ridículos e surreais, não sendo de excluir uma saída sem acordo, prejudicial para todas as partes envolvidas.

A acontecer, essa saída desordenada estará politicamente coberta pelas eleições de ontem, pois os eleitores britânicos, ao votarem pelo “brexit” de Johnson, também terão que assumir as suas responsabilidades pelas conseqüências de um não acordo.

Venceu a demagogia e o populismo de Johnson e venceu a xenofobia, motores desse mesmo “brexit”, o que constitui mais um sintoma do avanço da extrema-direita europeia, com todos os perigos que isso acarreta para a sobrevivência da Democracia e pelo respeito e tolerância por tudo o que seja diferente dos padrões sociais maioritários, começando na cor da pele e terminando na orientação sexual.

Os trabalhistas de Corbyn, foram castigados pelo modo ambíguo e indefinido com que trataram a questão do “brexit”, pois nunca chegámos a saber o que o Labour faria para resolver a questão, caso fosse governo; provavelmente, nem eles próprios saberiam.

Mas o mais grave foi o facto de os eleitores britânicos terem rejeitado os programas económicos e sociais de cariz social-democrata propostos por Corbyn, em mais um sintoma da viragem socialmente conservadora e economicamente ultraliberal que vive a Europa, antecâmara de soluções de governação fascizantes e autoritárias, que não auguram nada de bom para a justiça e coesão sociais.

Com a queda interna de Corbyn, ganhará força no Partido Trabalhista a corrente inspirada no “new labour” de Tony Blair, que em nada difere dos seus rivais conservadores, tanto na economia como no social; o que significa que teremos um Labour que deixará de ser alternativa aos desvairos ultraliberais dos “tories” de Johnson, inspirados em Thatcher.

Foram derrotados todos os que advogaram pela permanência do Reino Unido, a começar pelos Liberais-Democratas, que vêm a sua presença em Westminster reduzida à insignificância.

Uma última palavra para a Escócia, que ao rejeitar a saída da União Europeia em 2016, e ao votar esmagadoramente pelo SNP, poderá estar a maturar um sentimento de independência com condições de se concretizar, caso esse mesmo “brexit” se realize sem acordo e/ou com conseqüências na economia e na vida real de uns escoceses que poderão cair na tentação de trocar a tutela de Londres pela de Berlim.

Será interessante ver a União Europeia apoiar a independência da Escócia, comparando com o que essa mesma União Europeia fez com a Catalunha, num exercício de hipocrisia política primária, usando dois pesos e duas medidas.

As eleições de ontem marcam uma viragem à direita do eleitorado britânico, dando um apoio inequívoco ao “brexit” de Johnson e castigando severamente a ambigüidade dos trabalhistas em relação a essa mesma questão.

Que os britânicos não se arrependam da votação se ontem, pois poderão ter aberto uma “caixa de Pandora”, não só em relação às conseqüências sua saída da União Europeia, como também quanto à continuidade da existência do Reino Unido, tal como o conhecemos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Chega de Fascismo




“Chega”, terceira pessoa do singular no presente do indicativo do verbo “chegar”, no sentido de que basta, já é demasiado, não queremos mais; provavelmente, nem sequer deveria ter existido.

O ressurgimento de movimentos fascistas tornou-se numa triste realidade, irrefutável em toda a Europa, para infelicidade e desgraça de todos nós.

Negar ou desvalorizar esse reaparecimento torna-se num ato de cumplicidade, favorável a todos os que pretendem mergulhar o continente numa longa noite de trevas.

É imperioso lembrar que os movimentos fascistas atuais possuem todas as características do fascismo clássico dos anos trinta do século XX, apesar de muitos deles ainda não assumirem alguns desses traços.

Os partidos fascistas dizem ser anti-ideológicos, isto é, afirmam não ter ideologia, a fim de se colocarem a si próprios acima dos restantes partidos, nomeadamente dos marxistas e dos liberais; o que é totalmente falso, pois o fascismo tem uma ideologia.

Os fascistas defendem um estado forte e totalitário de partido único, suprimindo toda e qualquer oposição, não deixando espaço para a Democracia, que desprezam, ou para o parlamentarismo, que culpam por muitos dos males do mundo; preferindo antes um Duce ou um Führer com plenos poderes, sem nada que limite e controle a governação.

Lembrem-se disto, quando certos partidos fascistas proporem a redução do número de deputados ou soluções presidencialistas, pois mais não estão que a retirar poderes e importância ao parlamento, para os atribuir a um governo presidencialista forte.

O fascismo possui uma fortíssima componente nacionalista, intransigente na defesa da pureza e da suposta superioridade da raça e da cultura nacionais, não tolerando tudo o que é diferente. Sim, são racistas.

Os fascistas negam o conceito marxista da luta de classes, como se um patrão milionário vivesse no mesmo mundo e tivesse os mesmos interesses que um trabalhador humilde, substituindo-o pelo conceito do “interesse nacional”, sob a capa do qual defendem os interesses das elites, perpetuando-lhes o poder e vedando a mobilidade social à restante população.

Normalmente, são essas mesmas elites que favorecem a tomada do poder pela parte dos movimentos fascistas, nomeadamente quando os partidos da chamada democracia parlamentar, de ideologia liberal e burguesa, deixam de ter capacidade para lhes defender os interesses.

Isto é, para os empresários, patrões e capatazes, não interessa que o regime seja democrático ou não, desde que lhes defenda os privilégios; somente acenam com a superioridade moral da Democracia se isso lhes for conveniente e jamais por convicção ideológica ou escala de valores.

Pelo menos até agora, os movimentos fascistas não possuíam uma das componentes que mais os caracterizou, nos anos trinta do século XX: a posse de uma milícia armada, de inspiração paramilitar, que dominasse as ruas, espalhando a coação, o terror e violência em cima de todos os adversários do partido fascista, tal como fizeram as SS ou as SA (até 1934) na Alemanha nazi, ou os Camisas Negras na Itália de Mussolini.

Por isso mesmo, é com preocupação que assistimos à infiltração de movimentos fascistas nas forças militarizadas, possível embrião de uma espécie de tropa de choque, ao serviço da mais infame das causas.

Não é especulação nem alarmismo; é antes constatar que todos os movimentos acima descritos surgem quase sempre a partir do “zero”, evoluindo posteriormente para organizações ao serviço da ideologia fascista, que quando se tornam um perigo evidente, será sempre demasiado tarde para as travar.

Que a História não se repita, apesar da evidência de que neste século XXI, continuamos a repetir os mesmos erros de há oitenta anos atrás: um capitalismo selvagem que não olha a nada nem a ninguém, aliado à desvalorização geral dos sinais de perigo vindos da extrema-direita.